Figura de cofre de banco aberto com barras de ouro

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Antes mesmo do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, deixar escapar a mudança do nome do Open Banking para Open Finance, o conceito mais amplo de inovação financeira já era incorporado no discurso da Microsoft para o setor. Fabio Mittelstaedt, head da indústria de serviços financeiros da Microsoft para o Brasil e a América Latina, diz que o Brasil tem liderado a inovação financeira na região. A computação na nuvem tem facilitado a criação de componentes do conceito de open finance, como modelo comum de dados e templates especializados por tipo de serviço financeiro.

Nessa entrevista, ele lista algumas das soluções usando inteligência artificial, deep learning, analytic avançado e até computação quântica. E destaca a possibilidade de o Brasil ter superApps como WeChat Pay e do AliPay, com serviços cross indústria, materializando o conceito de open finance.

DMI: Como está caminhando a inovação financeira e a expansão dos serviços financeiros digitais na América Latina?

Fábio: O Banco Central do Brasil tem sido um acelerador positivo. Em vez de simplesmente regular, tem trazido desafios para acelerar a inovação e isso tem influenciado bancos centrais de outros países. Nosso time de arquitetos e cientistas de dados desenvolveu uma arquitetura tanto para o Pix quanto para o Open Banking. Essa arquitetura já é baseada no conceito de inovação aberta e modular e estamos levando-a, com mínimos ajustes, para Colômbia, México, Chile. Estamos conversando com o banco central da Argentina que quer entender o que a Microsoft está desenvolvendo de soluções de open finance para a nuvem.

DMI: A nuvem facilita a inovação?

Fábio: Sim. ela permite que as soluções sejam levadas para outros países. E quando falamos de elementos dessa nova realidade de open finance, como modelo comum de dados, esse modelo deve ser padrão para open banking, open finance, ou open insurance. Isso permite disseminar esses modelos.

DMI: A Microsoft desenvolveu esses modelos para o Banco Central do Brasil ou para seus clientes?

Fábio: Para nossos clientes. Mas o BC, além de regulador, também é um cliente da Microsoft. Temos não apenas agendas comerciais mas também de inovação com o time do BC. Estamos desenvolvendo o projeto antifraude em computação quântica com o BC e com a Quantum Brasil. Esse é um bom exemplo de coinovação, em que o interesse não é nem tanto comercial, mas de fomentar a inovação. Com o Pix, são necessários sistemas antifraude em tempo real. Isso só é possível com modelos de inteligência artificial em nuvem, analytic avançado e a computação quântica fortalece esses modelos.

DMI: Qual  a importância da nuvem e das arquiteturas abertas para o open finance?

Fábio: Cada vez mais, essas inovações em nuvem serão em arquiteturas abertas, porque essa é a realidade dos bancos e seguradoras, que têm os seus legados. Quando veio a regulamentação do Open Banking, alguns bancos já tinham sua gestão de APIs (interfaces de integração) e já havia iniciativas de bancos digitais com APIs abertas e serviços com o ecossistema. O que acontece hoje é que estamos unindo melhor as peças de um grande “lego” para open finance de uma forma que se possa harmonizar tudo o que o banco tem. A Microsoft pode oferecer todos os módulos core do open finance, mas o banco pode informar que já tem uma determinada solução, e tudo bem. Essa é a lógica moderna de open finance. Ele permite uma coinovação com qualquer tipo de solução já existente, inclusive qualquer tipo de nuvem ou as fontes de dados.

DMI: Qual estratégia da Microsoft para a nuvem?

Fábio: A Microsoft tem uma abordagem costume insight. Qualquer que sejam as fontes dos dados, os motores analíticos ou o CRM, nós vamos capturar os insights de todas essas fontes e orquestrar, transformar e entregar insights para diversas aplicações de open finance. Uma delas que estamos desenvolvendo no exterior e para alguns grandes bancos brasileiros é o solução de gestão de finanças pessoais, em que avaliamos o comportamento do correntista no open banking. Respeitando a LGPD, e o que ele permitir, fazemos um tratamento com inteligência artificial e deep learning e transformamos em aconselhamento financeiro inteligente.

DMI: Não é o que o Guia Bolso fez de forma pioneira há anos, antes mesmo de surgir o Open Banking?

Fábio: Há algumas diferenças. Com a regulamentação, oficializa-se que esses dados sejam abertos. Mas há uma diferença muito grande na sofisticação dos algoritmos e o output disso como o costumer experience. Chegamos com assertividade de aconselhar níveis de empréstimos que o usuário deveria pegar e até gerir seu fluxo de caixa pessoal.

DMI: Isso é um produto que vocês estão oferecendo aos bancos?

Fábio: É um produto de coinovação. Já temos alguns modelos analítico-preditivo prontos, mas é preciso um trabalho preparatório de aprendizado de máquina utilizando dados históricos de seis meses a um ano aliado ao transacional, ao comportamento. Cruzamos esses dados com informações demográficas, fazemos segmentação da base. Tudo isso é mastigado no machine learning e o algoritmo vai se adaptando ao perfil dos correntistas desses grandes bancos. É um trabalho de quatro a seis meses e bastante rico. A realidade do open finance tem que ter inteligência de insights, senão vira um grande brocker de comparação de preços.

DMI: O presidente do Banco Central anunciou que o Open Banking vai se chamar Open Finance, veio da Microsfot essa recomendação?

Fábio: Somos muito favoráveis a esse ponto de vista. Se pegarmos o open insurance, que vem na fase 4 do open finance, de 80% a 90% da arquitetura que já desenvolvemos também vai atender o open insurance e atenderia open trade ou open investment. Não vamos criar padrões diferentes para cada produto financeiro.

DMI: Open finance não se refere apenas a bancos.

Fábio: Exatamente, extrapola serviços financeiros. Essa questão passa até por alguns conceitos como o do super app, que não é apenas uma aplicativo com muitas funcionalidades. O conceito original, que veio dos app chineses como o WeChat Pay e do AliPay, é de multisserviços cross indústria. O WeChat Pay tem uma jornada para saúde, desde o agendamento de consulta à telemedicina, exames e pagamento. E se conectam com a indústria com uma espécie de ERP. Se a pessoa passa perto de uma loja, já aparece um QrCode com uma oferta específica para ela.

DMI: Quais são os lançamentos da Microsoft para este cenário?

Fábio: Estamos lançando nuvens exclusivas para cada vertical: manufatura, saúde, varejo e serviços financeiros. Esta última tem como diferencial o nível de especialização por serviços, que inclui toda parte de experiência do cliente, modelos de engajamento e aquisição. São serviços especializados como se fossem templates que aceleram o desenvolvimento. Outra solução é o call center cognitivo com uso mais profundo de IA, análise de sentimento e de voz, trazendo informações em tempo real para ofertas personalizadas, analisando sua capacidade de renda do cliente e seu momento de vida.

DMI: O Brasil é um caldeirão de inovação na indústria financeira?

Fábio: O Brasil começou a se diferenciar e ficar par a par com os mercados maduros como a Ásia, Europa e EUA. Essa pressão das datas no Open Banking inicialmente fez todos os clientes correrem atrás do básico tecnológico. Num segundo momento, o Brasil começou a se diferenciar porque as instituições financeiras e varejistas perceberam que não bastava o básico regulatório para gerar valor.

DMI: O Brasil já tem um super app?

Fábio: Ainda não, porque o super app é cross indústria. Estamos desenvolvendo alguns de seus elementos como o uso mais avançado de IA para gestão de finanças pessoais, que o Guia Bolso iniciou. Para ser um super app tem de sair do trivial; não basta apenas oferecer empréstimos, tem de ter serviços de outras indústrias. Agora com o Open Finance temos a possibilidade de moldar esses produtos de forma customizada.