Ricardo de Barros Vieira | Credito: Divulgação

Ricardo de Barros Vieira | Credito: Divulgação

Até novembro, a Associação Brasileira das Empresas de Cartão e Serviços (Abecs), espera concluir o projeto piloto para implementação de uma nova opção de serviço para o consumidor e o lojista: o Crediário no Cartão.

Trata-se de mais uma alternativa de venda parcelada, oferecida pelos bancos emissores de cartão, que permite que varejistas de pequeno, médio e grande porte ofereçam mais uma opção de compra a prazo e ampliem sua base de clientes.

O consumidor poderá parcelar sua compra em até 48 vezes e o lojista receber o dinheiro total da venda em até cinco dias, o que estimulará a concorrência dos pequenos e médios estabelecimentos com os grandes varejistas do país.

Em entrevista exclusiva ao Digital Money Informe, Ricardo de Barros Vieira, VP executivo da Abecs, garante que produto não competirá com o parcelado sem juros, que caiu no gosto dos brasileiros, e ao longo dos anos vem financiando o consumo e o comércio no país.

“A iniciativa é uma injeção direta na área de serviço e de comércio do país e nossa expectativa para 2022 é transacionar R$ 3 trilhões no cartão de crédito, débito e pré-pago. Isso representa compra, ou seja, financiamento direto ao consumo.”

Por que a Abecs anunciou o crediário no cartão só agora?

Vieira – Na realidade já soltamos esse projeto há alguns anos, mas vem crescendo em ritmo muito aquém do esperado. Como era difícil fazer essa operação simultânea em todas as cidades do Brasil, embora o crediário já esteja disponível em todas as máquinas do país, a Abecs optou por focar em duas cidades, Campinas e Brasília, e em dois segmentos, saúde e automotivo, para implementar um projeto piloto. São 8 mil estabelecimentos comerciais nessas duas praças que vão testar o produto.

A iniciativa chega em boa hora nesse cenário de crise e inflação galopante?

Vieira – Esse é o pano de fundo. O país precisa crescer. E essa iniciativa vai ao encontro do momento. É preciso ter cuidado, pois as iniciativas tomadas pela indústria em geral são vistas por alguns como se quiséssemos super endividar as pessoas. De jeito nenhum, 90% dos clientes de cartão pagam a fatura integralmente no vencimento.

E como fica a inadimplência com essa modalidade?

Vieira – A inadimplência do cartão em agosto foi de 4%, considerada uma das mais baixas da série, e muito próxima da de pessoa física. Existe uma política de crédito consistente e esse processo não se deteriorou, muito pelo contrário.

Haverá alguma fricção desse modelo com a implantação dos recebíveis de cartão para o lojista?

Vieira – Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A iniciativa vem para somar, pois representa mais uma arma para o estabelecimento comercial converter em venda e o consumidor fazer a melhor compra. Ela é mais uma alternativa.

O crediário vai funcionar no físico e online?

 Vieira – O crediário já está 100% em funcionamento no físico em todo o país. Já tem um grupo trabalhando para implantar o online. A grande barreira tem sido a de UX, experiência do usuário, e não tecnológica. A solução trará mais segurança ao consumidor e não prejudicará a conversão para os estabelecimentos comerciais. Já temos 80% da indústria com as maquininhas adaptadas.

O cartão de crédito ainda é o maior financiador do consumo e do comércio no país?

 Vieira – Atualmente, são transacionados no cartão R$ 1,5 trilhão só para compras.  Os grandes grupos varejistas são os únicos hoje com condições de levantar recursos vultuosos para parcelar a compra em mais vezes. Como no  parcelado sem juros o lojista recebe por cada parcela paga, os pequenos ficam sem fôlego para parcelar em mais vezes. Ele pode até antecipar, mas a taxa de juros que terá de pagar em 60 dias é maior.

De quem é o risco no parcelado sem juros?

Vieira – O risco é 100% do emissor, no caso os bancos. O estabelecimento comercial aceita o cartão, não apenas por trazer mais clientes, mas por ele assumir o risco do cheque sem fundo e toda a operação embutida. O comerciante paga apenas o MDR (Merchant Discount Rate), a taxa administrativa cobrada dos comerciantes pelo uso da tecnologia das adquirentes para receber pagamentos por cartão de crédito e débito, que é menor que a taxa de devolução de cheque sem fundo determinada pelo Banco Central. O risco e a expertise de fazer crédito já está nos bancos. No parcelado sem juro, quem está parcelando a conta é o comércio, que não tem o risco, mas embute os juros.

O preço do produto permanece o mesmo sendo pago à vista ou parcelado?

Vieira – Há um inflacionamento nos preços hoje porque o valor do pagamento à vista é igual ao parcelado em 10 vezes. Mas ninguém em sã consciência pode pensar que um produto pago em 10 vezes, não traga juros de 10% a 20% embutidos. Os preços à vista têm esse overprice. E uma iniciativa como o crédito no cartão gera um desinflacionamento nos preços praticados hoje no mercado.

Por que os juros do rotativo não caem?

Vieira – O cartão tem pouquíssimas receitas. Cerca de 76% de tudo que é comprado com o cartão de crédito não implica em cobrança de juros para o portador. É tudo de graça para ele e o banco se remunera sobre 24%, grande parte é o parcelado. Os emissores podem cobrar cinco tarifas sobre o cartão. Todas foram tabeladas pelo BC há mais de 15 anos, época em que sequer havia internet. Logo, as tarifas são controladas, o percentual de financiamento é mínimo, a maioria sem juros, e a receita dos emissores bem pequena, enquanto o risco é de 100%.