Foto interna da B3

Crédito: Divulgação

Com cinco ETFs de cripoativos negociados em ambiente listado, a B3 ampliou a estratégia de os criptoativos para o ambiente de balcão.  A empresa passou a aceitar, na semana passada, o registro de operações de derivativos de balcão e Certificados de Operações Estruturadas (COE) referenciadas em ativos vinculados a criptoativos. Otávio Emmert, gerente de produtos de derivativos de balcão e COEs da B3, informa que as primeiras operações já começaram a ocorrer.

“Estamos permitindo registro de derivativos de balcão e COE para produtos vinculados indiretamente a criptoativos, como um ETF. Mas não conseguimos ainda produtos vinculados diretamente a criptoativos como o preço de alguma moeda. Isso é necessário para o enquadramento à legislação atual”, esclarece Emmert.

As operações podem ser contratos futuros de criptoativos negociados em bolsa regulada, Exchange-traded Fund (ETF) sobre criptoativos ou ETFs sobre índice de criptomoedas. A disponibilização deste novo tipo de ativo-subjacente poderá ser solicitada por qualquer participante do Balcão B3.

A iniciativa da B3 ocorre em um momento de maior interesse do investidor brasileiro por esse tipo de ativo. O ETF de Cripto HASH 11, por exemplo, lançado em abril, foi o sexto mais negociado na bolsa em julho. Outros quatro ETFs em criptomoedas foram colocados no mercado desde então e estão disponíveis para os investidores na bolsa brasileira.

Atualmente são cinco os ETF já listados na B3. O HASH11 (Nasdaq Crypto Index), foi o primeiro ETF referenciado a um índice composto por criptoativos negociado na bolsa do Brasil. O QBTC11, gerido pela QR Capital, tem exposição unicamente em Bitcoins. O QETH11, sob gestão da QR Asset Management, permite  investimento em Ethereum, segunda maior criptomoeda do mercado. O  BITH11 também é referenciado em Bitcoi. E o ETHE11, da Hashdex, replica o índice Nasdaq Ether Reference Price, que traz em tempo real o preço de referência da criptomoeda Ethereum.

Nesta entrevista, Otávio Emmert, gerente de produtos de derivativos de balcão e COEs da B3, explica as diferenças dos produtos negociados nos ambientes listados e de balcão e o  funcionamento das novas ferramentas de balcão bem como o potencial de novos negócios relacionados indiretamente a criptoativos.

DMI: A Bolsa de Chicago foi a primeira a aceitar negociar contratos futuros em cripto em dezembro de 2017, levando a uma disparada no preço do bitcoin, à US$ 20 mil, na época. Qual a estratégia da B3?

Otávio: Já temos cinco ETFs, mas o foco são os produtos de balcão, em que as negociações de produtos são feitas de forma bilateral entre as partes. A B3 entra com os serviços de registro e liquidação dessas operações. No ambiente listado, as operações são padronizadas com todos os parâmetros previamente determinados. O que é negociado pelos agentes de mercado é o preço dos produtos como as ações, no chamado ambiente de bolsa.

DMI: Por que a B3 decidiu oferecer instrumentos de balcão para cripo?

Otávio: Temos evoluído no ambiente de cripto de acordo com a demanda de mercado, tanto por parte dos investidores, empresas, agentes do mercado financeiro como corretoras e bancos. Somos uma infraestrutura que atende a todos os produtos de todos os mercados e temos um tratamento de prioridades. Depois do lançamento das ETFs de criptomoedas, vimos o mercado demandando instrumentos complementares que possibilitasse a disponibilização de outros produtos financeiro para o mercado. A partir do momento em que tenho um ETF de criptoativos, no mercado a vista listado em bolsa, gerou outro tipo de necessidade: como se proteger da posição que a pessoa tem no ETF. Esse tipo de proteção é possibilitado por instrumentos de derivativos. Então passamos a ter demandas de players de mercado que já estavam atuando com instrumentos de criptoativos.

DMI: O derivativo funciona como um hedge?

Otávio: Sim, o que os players buscam fazer justamente o hedge de sua posição, procurando se proteger contra flutuação de preços. O instrumento clássico do mercado para o hedge são os derivativos. Os instrumentos de derivativos são os contratos futuros; o contrato a termo; as opções; e swap. Eles têm mecânicas diferentes, mas podem servir ao mesmo propósito de proteção. São contratos que dependem de uma outra coisa, que pode ser o ativo objeto ou subjacente em que se avalia a flutuação de preço. Se você acha que o dólar vai subir muito, pode fazer um contrato futuro de dólar para garantir o valor mais baixo. O contrato futuro é precificado a mercado. Você compra a um preço e se no futuro estiver valor acima, você recebe um ajuste dessa diferença. Se o preço flutuou, você vai ter garantido o dólar àquele preço que comprou a contrato futuro, via derivativo. E se estiver abaixo, há o ajuste negativo. O derivativo permite a gestão de risco. Outra utilidade é especular e apostar na valorização, para ter ganho financeiro.

DMI: Atualmente há mais gente  querendo se proteger ou especular com os derivativos em cripto?

Otávio: Dado que essa liberação do mercado de galpão é recente, não conseguimos mensurar muito. Como infraestrutura, temos a missão de fornecer o sistema para que o mercado aconteça. A forma como esse mercado vai caminhar, vai depender dos bancos, corretoras que vão oferecer produtos.

DMI: Já houve alguma operação?

Otávio: Já temos quatro produtos no ambiente de balcão que servem para vários tipos de ativos subjacentes: o contrato a termo, as opções, o swap e o Certificado de Operações Estruturadas (COE). Esses produtos já existem há anos na B3 e podem ser usados vinculados a ativos subjacentes e desde a semana passa estão disponíveis para ativos vinculados a cripto ativos. Basta o mercado demandar esta habilitação em nossos sistemas desse novo ativo subjacente.

DMI: Alguém já demandou?

Otávio: Sim já tivemos demanda e alguns registros de todos os quatro instrumentos.

DMI: A CVM puniu a Binance porque ela não tem registro para operar valores mobiliários no país e investidores residentes no Brasil estavam comprando produtos de derivativos da empresa fora do país. Que tipo de cuidado vocês estão tomando do ponto de vista regulatório?

Otávio: É preciso fazer uma ressalva. Estamos permitindo registro de derivativos de balcão e COE para produtos vinculados indiretamente a criptoativos, como um ETF. Mas não conseguimos ainda produtos vinculados diretamente a criptoativos como o preço de alguma moeda. Isso é necessário para o enquadramento à legislação atual. Conforme a regulamentação evolui, evoluímos do nosso lado. O fato é de que a B3 está de olho neste mercado com o viés na centralidade do cliente e o que ele está demandando. Queremos trazer a mesma segurança e resiliência operacional que já temos de outros mercados.