Bancarização dos brasileiros passa pelo acesso ao crédito - Crédito: DMM

Crédito: DMM

O número de brasileiros que não acessa os serviços financeiros – mais de 30 milhões de pessoas – é mais um indicador da desigualdade vivida no país. Segundo estudo recente da Fundação Dom Cabral, 38,5% dos brasileiros adultos não têm conta em banco. Somados aos desbancarizados, mais de 64 milhões de brasileiros têm restrição ao crédito, de acordo com a Serasa.

Em meio à revolução do mercado financeiro, quando se discute as muitas oportunidades que serão geradas pelo Open Finance para facilitar a vida das pessoas ou o sucesso do sistema de pagamento instantâneo Pix, a grande questão que se coloca é como mudar a realidade de quase metade da população.

Como incluir tantas pessoas que são ‘transparentes’ ao sistema financeiro e que enfrentam inúmeras dificuldades seja para adquirir um bem, alugar uma casa ou simplesmente receber um pagamento? O tema encerrou os debates do Digital Money Meeting, nesta sexta-feira, 27.

Caio Belazzi, fundador e CEO da fintech de impacto social Alpop, iniciou a sua fala alertando também para as desigualdades regionais e questionou se bancarizar é só abrir uma conta. Caio citou números divulgados pela Serasa, que mostram que 35% das pessoas ocupadas no Brasil recebem até 1 salário-mínimo. Dessas, 44% têm pedidos de crédito recusados. Entre aqueles que ganham acima de 5 salários-mínimos, o percentual de recusa cai para 18%. “Para que ter uma conta se não vou ter acesso ao crédito?”, provocou.

Segundo Marcelo Ramalho, CEO da Provu, fintech de meios de pagamento, a tecnologia já encurtou o caminho para a inclusão das pessoas de baixa renda. Ele acredita que “falta entender a realidade dos informais, dos ‘transparentes’, que nem sempre são negativados, simplesmente não ‘existem’ para o mercado”.

O papel das fintechs

Moderando o debate, o presidente da ABFintechs, Diego Perez, lembrou que o Brasil passou décadas com grande concentração bancária, onde cinco bancos ainda detêm mais de 80% das operações financeiras. “As fintechs chegaram para competir, para trazer inovação, mas qual é o papel delas nessa inclusão?”, questionou.

Co-fundador e CEO da N5, empresa americana especializada no desenvolvimento de software para bancos e fintechs, Julián Colombo, afirmou que o Brasil é muito interessante para as fintechs, o que motivou a chegada da empresa no país. “A demanda está no Brasil, que tem um regulador agressivo, moderno. O país está evoluindo em tudo o que é desejável no mercado financeiro”, ressaltou.

O CEO do Alpop criticou os modelos de análise de risco para o crédito e defendeu uma maior compreensão da socioeconomia do Brasil, que é muito diferente em cada região. “Um dos pilares para destravar o crédito e dar acesso aos serviços financeiros é a análise de risco, passando também por uma simplificação do Judiciário que, por morosidade e excesso de normas, acaba elevando as taxas financeiras”, defendeu.

O compartilhamento de dados a partir do Open Finance e as informações do Cadastro Positivo são ferramentas para destravar a inserção de mais pessoas aos serviços financeiros. Levantamento da ANBC (Associação Nacional dos Bureaus de Crédito) mostra que, desde julho de 2019, quando o cadastro passou a vigorar no país, já são mais de 200 milhões de brasileiros registrados, o que fez os spreads em operações de crédito caírem dez pontos percentuais, segundo o Banco Central.

O CEO da Provu concorda que a análise do risco é o que encarece o crédito, mas acha que o país está só no começo. “Estamos engatinhando em termos de informações abertas, o Open Banking e o Open Finance chegaram para agilizar isso. Ter informações é um ótimo caminho e qualquer ferramenta que tivermos para a inclusão é válida”, avaliou

Marcelo Ramalho preferiu não fazer previsões, mas vê soluções também a partir do Pix.  “O Pix já provocou uma revolução e ainda não temos todas as suas funcionalidades disponíveis, como o Pix Garantido, que ajudará na bancarização e na ampliação do crédito”, concluiu.