Brasil tem 64 milhões de pessoas e 5,6 milhões de empresas negativadas - Crédito: DMM

Crédito: DMM

O crédito, atualmente, não só está bem restrito como 64% das pessoas e 5,6 milhões de empresas estão negativadas. Foi o que disse Marc Lahoud, fundador e CEO da plataforma QueroQuitar durante painel nesta quarta, 25, no Digital Money Meeting.

O encontro com especialistas teve como tema o open finance para baixa renda. Os convidados apresentaram suas colocações a partir da apresentação do moderador Genaro Dueire Lins, sócio e diretor de crédito do OpenCo, que abriu para discussão o fato de o Brasil ter 70% da população ganhando menos de um salário mínimo, e com alta informalidade.

Nesse sentido, Lahoud disse que o open finance serve justamente para “resgatar o devedor ao status de consumidor sustentável”. Segundo o CEO da QueroQuitar, a ideia é organizar a vida financeira da pessoa que é desorganizada com suas dívidas.

“À medida que a pessoa quita a dívida, vamos fazendo uma análise, e isso vai para o open finance. E vai abrindo portas. O credor recebe as informações de que o cara está pagando, saindo do problema. O usuário é devedor, mas fecha acordos, então vamos observando o comportamento dele. Esse comportamento vai gerar uma oferta de crédito, em algum momento”, falou.

“A educação financeira é essencial para que isso tudo que o Marc falou funcione”, disse Valdir Pereira, sócio da JLRodrigues & Consultores Associados.

“No geral, no Brasil, o nível de educação financeira não é dos mais altos. Tem muito analfabeto ou semianalfabeto em educação financeira. Quando se observa o nível escolar da pessoa, piora. Então é um grande desafio educar porque educação é comunicação. Mas o que ele vai entender, o que ele vai captar da explicação?”, continuou Pereira.

Segundo o consultor, qualquer ferramenta que possa ser usada para essa educação financeira será muito bem-vinda e deverá ser explorada.

“É um problema comportamental que precisamos reverter”, acrescentou Marc Lahoud, sobre a falta de educação financeira do brasileiro.

“O tomador de crédito, devedor contumaz, é minoria. Mas a maioria das pessoas pega o crédito e se desorganiza financeiramente. O básico não é feito: quanto eu ganho, quanto eu gasto, quanto sobra”, continuou Lahoud.

“Como falar em educação financeira se nem educação existe no país?”, questionou.

“De qualquer forma, open finance é um ecossistema colaborativo que promove impacto social. Não dá para o sujeito pagar 25% de juros ao mês, que será sua única opção se tiver restrição de crédito”, disse o executivo da QueroQuitar.

Adaptação

Para Luigi Iervolino, diretor e head CoE Open Finance da Bip, o open finance para baixa renda será logo assimilado e aceito. “Será igual a internet. Vai chegar em você sem que você nem perceba. Vai ajudar, e brasileiros não têm restrição ao compartilhamento se aquilo lhe trouxer vantagem”, falou.

Lahoud concordou. “O brasileiro se adapta rápido e aceita fácil o que lhe traz alguma vantagem. Veja o caso do WhatsApp. Acho que vai acontecer o mesmo com open finance. PIX é outro exemplo dessa dinâmica. É comprovar que é bom e fazer gerar valor. Começou agora, estamos no início da história.”

Ferramentas

Iervolino explicou algumas das funções que as ferramentas oferecerão. “Darão alertas sobre gastos. Algo em que você gastou mais que no mês passado, por exemplo. Funciona de maneira que a pessoa nem precise pensar muito, como se tivesse um assistente sempre ajudando.”

De acordo com ele, a ferramenta vai dizer até em quantas parcelas se pode fazer um empréstimo “porque ela analisa o perfil da pessoa”.

Outra alternativa é um “cofrinho virtual”, que arredonda o valor do pagamento, “o que também ajuda pessoas que têm dificuldade em economizar”.

Luigi Iervolino disse que sua empresa teve acesso a pesquisas que indicam que o open banking melhorou em 82% a vida das pessoas. Como Marc Lahoud, reforça o fato de que a pessoa endividida passa a ter sua atuação financeira avaliada.

“A instituição financeira terá acesso às informações sobre a dívida da pessoa. Daí consegue lhe dar um empréstimo que cubra as parcelas com um juro menor. E faz isso analisando a capacidade de pagar do indivíduo”, falou.

“Analisar o risco é ver também sua capacidade de economia: quanto está entrando na conta, se está conseguindo economizar….À medida que a pessoa migra de um empréstimo para outro e economiza, isso lhe ajuda a não repetir os mesmos erros. Então a instituição financeira vai chegar nela”, afirmou.

Fraudes

Como o assunto era movimentação financeira, também veio à tona a questão das fraudes.

A fraude tem um custo social. Alguém que não é o fraudador paga a conta, lembrou Valdir Pereira, da JLRodrigues & Consultores Associados.

Ele também citou a importância da LGPD, nesse sentido. “É uma lei que faz esse balanceamento de que tem que se proteger os dados, mas também alimentar o mercado tecnológico com os dados.”

Pereira disse que não é hora de pensar em parcerias com outros setores para se conseguir ainda mais dados.

“Falamos de algo novo. Open banking e open finance estão em fase de implantação. Ainda não deu tempo de saber se os dados que estão aí são confiáveis e suficientes. Não dá ainda para pensar em inserir outro ecossistema junto. É prematuro. É analisar e ver se há necessidade de combinar informações, pegar mais dados. Fazer um estudo muito preciso.  E talvez nem precise de mudanças legislativas, já que é baseado no consentimento”, falou Pereira.

“O único dado antigo é que o Brasil é um país com muita baixa renda. O resto é muita coisa nova. Então pensar em avançar para mais dados quando as pessoas ainda não sabem nem lidar com o mínimo é temeroso”, concluiu.