O mercado de crowdfunding para investimentos em startups no Brasil cresceu 43% em 2020 e deve se multiplicar a partir deste ano, após a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) divulgar a nova regulamentação. Em março do ano passado, a autarquia realizou a Audiência Pública SDM 02/2020 para alteração da Instrução CVM nº 558, de 2017, que regulamentou o crowdfunding de investimento. Agora a CVM analisa as contribuições e está em vias de lançar a nova regra.

A principal novidade aguardada pelo mercado é a criação do mercado secundário de crowdfunding para que os investidores possam negociar seus títulos, aumentando a liquidez desses ativos. A nova norma propôs também a ampliação de limites de valor máximo de captação, de receita bruta do emissor e de investimento individual anual. O objetivo é permitir que um universo maior de empresas possa se beneficiar deste instrumento de captação de recursos. Hoje o empreendedor pode captar, no máximo, R$ 5 milhões.

Os dados mostram que uma nova regulamentação sempre gera impacto positivo no mercado. Após quatro anos do primeiro marco regulatório que introduziu o crowdfunding de investimento no Brasil, é possível observar o crescimento dessa modalidade de captação pública de recursos. Em 2019, foram captados R$ 59.043.689, um aumento de 28% em relação aos R$ 46.006.340 levantados em 2018. No ano passado o montante subiu para R$ 84 milhões, alta de 43%.

Guilherme Enck, e Paulo Deitos, fundadores da CapTable – Crédito divulgação

Guilherme Enck, fundador com Paulo Deitos da CapTable, explica que o que foi regulamentado em 2017 é o equity crowdfunding em que os título transacionados são considerados valores mobiliários. Outros tipos de crowdfunding, como o de recompensas ou de doação – não têm regulamentação específica. Ele diz que a regulação foi muito importante para dar previsibilidade ao mercado.

“Antes de 2017, toda vez que uma plataforma ia lançar uma oferta tinha que entrar com pedido na CVM e seguir procedimentos semelhantes aos de IPO ou emissão de debêntures. E havia muita imprevisibilidade no mercado e muitas empresas acabaram sofrendo questões jurídicas ou administrativas da CVM porque não era fácil entender o que era certo”, diz Enck.

A regulação foi um marco permitindo que o número de plataformas saltasse de quatro, em 2016, para 32 no final do ano passado. Em 2016, 98 operações foram lançadas, com um montante alvo de R$ 20 milhões mas apenas 24 ofertas tiveram sucesso, captando R$ 8,34 milhões. Na ocasião, o valor médio de captação era de R$ 347,6 mil e o número de investidores somava 1.099. Em 2020, foram 106 ofertas, almejando uma captação de R$ 98,57 milhões das quais 74 foram bem-sucedidas, arrecadando R$ 84,4 milhões. A captação média subiu para R$ 1,40 milhão com 8.275 investidores.

Enck observa que das 32 plataformas autorizadas pela CVM, apenas metade estão realmente operacionais. A CapTable é uma das principais plataformas de investimentos em startups no Brasil. Desde a criação, em julho de 2019, já arrecadou mais de R$ 22 milhões e está quebrando recordes nas velocidades de captações. Uma delas levantou R$1,3 milhões em 11 horas.

“Se nos primeiros 14 meses captamos R$ 5 milhões, nos últimos dez meses captamos R$ 16 milhões para 17 empresas além de duas em processo de captação”, diz Enck. Parte do otimismo, é a redução da Selic para níveis históricos o que fez os investidores passarem a buscar ativos de maior rentabilidade que renda fixa.

“Abrimos o ano com uma meta ousada de arrecadar R$100 milhões até o final do ano para 40 startups. Estamos apostando bastante na nova regulamentação da CVM, que vai permitir o mercado secundário e a elevação dos limites. O novo regulamento deveria ter sido lançado em meados do ano passado, mas a pandemia atrasou”, diz Enck.

A Bloxs Investimentos, reivindica o posto de líder no mercado de equity crowdfund afirmando ter sido responsável por uma arrecadação que representa mais de 50% dos R$ 84 milhões computados pela CVM no ano passado. Felipe Souto, CEO da Bloxs Investimentos, destaca que a empresa criou a oferta Bloxs Capital de olho em investidores de perfil mais qualificado.

“A Blox nasceu junto com a instrução normativa da CVM que regulamentou o mercado, em outubro de 2017. Não só somos ativos como somos líderes absolutos deste segmento, com 45 operações e R$ 55 milhões arrecadados. Nosso grande ano foi 2020 quando recebemos um aporte de R$ 3 milhões da Domos Invest que nos ajudou a acelerar a operação com contratação de pessoas e tecnologia”, enumera.

Ele destaca que a empresa tem um modelo de negócio diferente. Em vez de investir em startups digitais, o foco da empresa é a economia real ou projetos com lastros em quatro verticais: energia (usinas solares, geração distribuída e pequenas centrais de arrendamento), imobiliário, agronegócio (pecuária de gado confinado e reflorestamento) e negócios em expansão como clínicas odontológicas que optaram por expandir por meio de crowdfunding em vez de franquias.

“Nosso perfil é mais de pequeno banco de investimento do que de propriamente de plataforma de crowdfunding. Tem se falado muito no mercado secundário, mas esta não é a principal mudança, pois a venda de balcão de títulos já existe. O que falta é um mercado secundário organizado e que monetize a plataforma. A principal inovação é o aumento do limite máximo a ser captado, que deve subir dos atuais R$ 5 milhões, para R$ 30 milhões, a exemplo do mercado americano, onde os reguladores elevaram de US$ 1 milhão para US$ 5 milhões. O limite de faturamento da empresa que capta também deve subir o que, em tese, vai trazer mais segurança, pois quanto maior o porte da empresa, mais seguro é para o investidor”, analisa souto.