Bernardo Quintão – especialista de inovação do Mercado Bitcoin Crédito: Divulgação

Uma nova revolução, tão poderosa como foi o movimento das fintechs, começa a ser gestada nas engrenagens do blockchain e dos criptoativos. Ela atende pelo nome de DeFi, abreviação de “Decentralized Finance”, as finanças descentralizadas ou toda tecnologia disruptiva que exclui a necessidade de intermediários em aplicações financeiras.

Além do Bitcoin, o blockchain trouxe diversas possibilidades de inovação, permitindo não só a tokenização de praticamente tudo, mas também a descentralização de processos como empréstimos ou mesmo a corretagem de ativos.

Nesta entrevista, Bernardo Quintão, especialista de inovação do Mercado Bitcoin, maior Exchange brasileira, explica os conceitos envolvidos nas DeFi e por que esta é uma forte tendência em toda a indústria financeira.

DMI: O que é afinal DeFi?

Bernardo: São as aplicações e protocolos que estão sendo construídos usando o blockchain como infraestrutura para propiciar o surgimento de serviços financeiros sem necessidade de uma instituição financeira. Há uma série de iniciativas de novos produtos e serviços nascendo no ecossistema de cripto organizadas no conceito DeFi. O conceito começa nas próprias stablecoins (criptomoedas lastreadas em um ativo real) que facilitam as remessas internacionais, como o Tether. Pode ser um empréstimo usando o blockchain; ou uma troca de um ativo por outro sem necessitar passar por uma exchange centralizada; ou mesmo seguros.

DMI: Como está o seu desenvolvimento no mundo?

Bernardo: Hoje está ainda bem incipiente. É um mercado muito novo em que muitos experimentos estão acontecendo. Mas já nos mostra o potencial para o mercado financeiro, para as fintechs e para a economia e a sociedade como um todo. São as vantagens do blockchain aplicadas a produtos financeiros.

DMI: Onde surgiu e onde está mais avançado o movimento DeFi?

Bernardo: Não tem um local geográfico, tem sido um movimento global. Há várias startups e protocolos nascendo nos EUA, na Ásia, na Europa e na América Latina. Há um protocolo DeFi que foi criado por um brasileiro da Balancer e hoje vale milhões de dólares. Ele tem uma equipe global. A Balancer criou um protocolo de Exchange descentralizada e concorre com a Uniswap – protocolo financeiro descentralizado usado para trocar criptomoedas -, a maior Exchange descentralizada. Outra startup brasileira a Pods, tem um protocolo descentralizado para um serviço de opções e derivativos usando blockchain. Os usuários podem participar como vendedores ou compradores de opções de venda e de compra, sem precisar se registrar ou transferir fundos previamente.

DMI: Isso não impacta na legislação brasileira? No ano passado, a Comissão de Valores Mobiliários, advertiu a Binance por estar vendendo produtos de derivativos no Brasil sem ter licença para operar no mercado de capitais brasileiro.

Bernardo: Super impacta, apesar de não estarem localizados no Brasil oficialmente, brasileiros conseguem acessar produtos financeiros e derivativos utilizando a plataforma deles. Essa discussão regulatória está acontecendo no mundo inteiro e é super importante que os reguladores consigam representar os interesses da sociedade na evolução tecnológica. Os reguladores querem entender como DeFi funciona e qual a sua relação com as regulações globais, os benefícios e os malefícios que podem causar aos usuários.

DMI: Quais os objetivos do movimento DeFi?

Bernardo: Hoje há 2 bilhões de desbancarizados, um público que tem acesso ao celular, mas não a uma conta bancária. O mercado de cripto e blockchain ainda não está atacando esse público. Mas eu acredito que, via DeFi, estamos construindo a base de infraestrutura de um novo sistema financeiro mais acessível a esse público, que hoje não tem acesso ao sistema financeiro atual. As fintechs e carteiras digitais vão permitir em pouco tempo oferecer serviços financeiros para mais pessoas. Hoje o DeFi ainda está muito experimental e restrito aos cripto nerds e é difícil de usar. Mas já tem bilhões de dólares sendo transacionados e quando começar a ter uma usabilidade mas fácil, deve migrar para outros públicos.

DMI: Atualmente quais são as principais stable coins?

Bernardo: A Tether, lastreada em dólar; a USDC da Circle e a Dai, emitida pela Maker. A Dai é muito interessante porque é uma stable coin emitida com criptos usando colateral. Se você tem 10 ether, valendo por exemplo R$ 10 mil cada um, num total de R$ 100 mil, você deposita e pode pegar R$ 10 mil em Dai antecipado, pagar uma taxa de juros por estar fazendo o empréstimo. É como se cada usuário pudesse ser às vezes pedir empréstimo, e às vezes agir como o próprio banco e ganhando o que a instituição ganharia.

DMI: O DeFi, segue uma sequência de inovação para a desintermediação financeira iniciada com as fintechs? No Brasil temos ainda o Pix e o Open Banking. Com o blockchain a desintermediação será avassaladora?

Bernardo: Perfeito. O Pix é um super exemplo de inovação financeira global e o Banco Central é referência em inovação no mundo. O Pix resolve uma série de problemas no sistema brasileiro. Mas o blockchain traz uma solução global. O Open banking também é super interessante, mas o mercado de DeFi é um open banking por natureza porque todos esses protocolos podem se comunicar entre si. O blockchain funciona como uma grande API. Você pode pegar um empréstimo no protocolo da Maker, depositar na Uniswap com o protocolo da Balancer.

DMI: O que garante a interoperabilidade?

Bernardo: O blockchain é open source e transparente. Cada um pode criar um smart contract.

DMI: O sistema financeiro já é super alavancado. O DeFi permite uma alavancagem ainda maior?

Bernardo: Por um lado pode-se fazer alavancagem usando protocolos DeFi. Mas toda alavancagem no sistema blockchain tem ativos como colateral e quando seu prejuízo começa a chegar perto dos ativos, o próprio sistema liquida automaticamente. Além disso, é tudo público. É como se os balanços dos bancos fossem públicos e auditáveis a cada instante. Vimos as liquidações acontecerem em tempo real na semana passada e o sistema se manteve. Cada queda dessas é uma prova de fogo para ver se o sistema se mantém em pé. O sistema financeiro tradicional tem bancos que criam dinheiro e permitem alavancagens. Por isso existe Basileia e bancos centrais.

DMI: O Blockchain já tem alguma instância de governança ou auditoria?

Bernardo: Essa é a grande vantagem e a força do blockchain, que é tão transparente e verificável que cada um pode ir lá e verificar, em vez de depender de uma big four. Embora nem todos tenha conhecimento técnico, há várias empresas que certificam código. O paradigma do blockchain é a descentralização, ter essa possibilidade de a governança ser das pessoas para as pessoas.

DMI: Hoje as fintechs já estão virando mainstream. Elas desafiaram os bancos, mas tornaram-se parceiras e fazem parte do sistema. Você acha que o DeFi vai se ter o mesmo sucesso?

Bernardo: Tenho certeza que sim. Só não sei se vai se tornar um segmento novo ou se será absorvido pelas startups e pelos bancos. O DeFi é uma infraestrutura e está muito mais parecido com o open banking do que com um concorrente das fintechs. Há uma grande empresa de delivery criando uma área de cripto e estudando como integrar serviços financeiros usando DeFi no seu aplicativo. Vamos ver todos os aplicativos e Big Techs incorporando serviços financeiros. No futuro, quando você for pegar um empréstimo vai analisar se é mais vantagem no blockchain ou no sistema financeiro tradicional.

DMI: Que conselhos você dá para quem não conhece essa tecnologia financeira?

Bernardo: As pessoas precisam ir menos pela euforia, achando que vão ganhar muito dinheiro, e sim conhecer o que vai ser o futuro.

DMI: Quais são os produtos de DeFi da Mercado Bitcoin?

Bernardo: Como somos uma exchange, damos acesso aos tokens. Fizemos uma curadoria e selecionamos os 13 melhores protocolos e estamos listando tokens em real. E criando conteúdo para explicar os protocolos.