Diego Perez, presidente da Abfintechs Crédito: Divulgação

Os investimentos estrangeiros e nacionais em fintechs e startpus brasileiras estampam as manchetes de sites e jornais cotidianamente e muitas dessas empresas têm se tornado novos unicórnios, superando a poderosa marca de US$ 1 bilhão de avaliação no mercado. Segundo a consultoria CB Insigths, em 2021, 209 se tornaram unicórnio no mundo até 22 de junho, de um total de 725.

O Brasil está chegando perto das duas dezenas e é um ninho de unicórnios, nas palavras do presidente da Associação Brasileira de Fintechs (Abfintechs), Diego Perez, que analisa o fenômeno em entrevista exclusiva ao Digital Money Informe.

DMI – Por que o interesse em fintechs e startups brasileiras?

Diego Perez – Esse é um movimento global, não é exclusivo do Brasil. As empresas unicórnio estão surgindo com cada vez mais frequência devido a um novo formato da economia digital. As empresas estão recebendo mais investimentos nos estágios iniciais, quando ainda não têm as suas ações negociadas em bolsa e, mesmo quando atingem esse patamar, preferem manter o capital fechado.

DMI – Por que essa opção?

Diego Perez – São alguns motivos. O primeiro deles é que, a partir do momento que a empresa tem ações negociadas em bolsa de valores, é necessária uma gestão muito mais aberta, sob o ponto de vista de governança e de estratégia. Qualquer situação nova é preciso comunicar ao mercado, obter aprovação do regulador,  para não influenciar positiva ou negativamente a volatilidade do papel.

DMI – E quando se tem capital fechado?

Diego Perez Nesse caso, não existem essas obrigatoriedades e a empresa acaba ganhando vantagem competitiva para mudar de estratégia sem necessitar comunicar ao mercado previamente e, devido à dinâmica de hoje, especialmente com negócios de base tecnológica, centrados no cliente, este tipo de movimento de ajuste de direção precisa ser feito com mais frequência. As empresas acabam se questionando sobre abrir o capital em bolsa ou se manter privadas e ter um controle total sobre a estratégia do negócio. E também porque, com a tecnologia hoje disponível, as empresas não precisam ter estruturas gigantescas de capital para se tornarem globais.

DMI – Se tornar um unicórnio é a primeira etapa para ser global?

Diego Perez Até um tempo atrás se tornar um unicórnio era mais o menos o final feliz da história. Hoje, é um dos primeiros passos para se tornar global. Muitas empresas, dependendo da região geográfica onde estão localizadas, precisam atingir esse status para expandir para outros territórios. O Brasil tem um mercado gigantesco. Temos mais de 200 milhões de habitantes, economicamente ativos mais da metade da população, e uma região geográfica ampla para atuar. Em países como Portugal ou Israel, por exemplo, onde a população é pequena, é preciso pensar em ser global antes de atingir o status de unicórnio. Varia de região geográfica e do mercado que se queira atacar.

DMI – No caso das empresas brasileiras é uma tendência, uma estratégia?

Diego Perez – É uma tendência porque, para atingir esse status, é preciso receber investimentos de fundos que estão alinhados nesta jornada de amadurecimento de negócios. Esses fundos costumam impor condições para as empresas, para que eles continuem investindo. Eles não fazem um aporte só, fazem aportes sequenciais. Cada nova rodada, o fundo aporta mais um pouco para não ser diluído pelo próximo investidor. Só que, para manter esse aporte sequencial, são impostas condições como, por exemplo, a apresentação de um plano de expansão global. Então é comum que as empresas já comecem a pensar na escala global para poderem manter os investimentos.

DMI – Dos 209 unicórnios surgidos em 2021 até agora, quantos são do Brasil?

Diego Perez – O Brasil vem se tornando um hub, um ninho de unicórnios, digamos assim. No Hemisfério Sul, não tem nenhuma outra grande metrópole ou país que tenha mais unicórnios do que o Brasil. E o Brasil descola muito de outros países vizinhos, como Colômbia, México, Argentina. Em alguns lugares, mais de cinco vezes. Mundialmente falando, um estudo feito pelo CB Insigths, em 2019, demonstrou que o Brasil só ficou atrás da China e dos Estados Unidos em número de novos unicórnios. Desde então, surgiram muitos, vários. Já estamos chegando na segunda dezena e já tem os próximos mapeados por vir. Esse mercado é muito dinâmico.

DMI – Por que o interesse estrangeiro no varejo bancário brasileiro?

Diego Perez – Existem alguns diagnósticos que podem trazer uma justificativa para esses aportes. Primeiro é porque o mercado bancário no Brasil é muito concentrado em cinco grandes players, que detém mais de 80% dos serviços bancários disponíveis. Essa concentração exacerbada produz algumas assimetrias, especialmente no custo final do produto. Se o mercado não tem muita competitividade, o produto tende a se manter caro para os clientes finais e isso também cria situações favoráveis para que novos entrantes possam oferecer um produto mais barato com a mesma qualidade, desde que ele receba um aporte de capital de investidores que estão dispostos a suportar o crescimento dele em detrimento de um lucro a curto prazo. É comum que essas empresas em curto e médio prazos não gerem lucro, algumas não geram nem receita, mas é uma estratégia para daqui a dez anos, para que possam atingir duas dezenas de milhões de usuários e possam competir em pé de igualdade com os grandes bancos que já estão pré-estabelecidos.

DMI – O adiamento das fases do Open Banking pode atrasar essas estratégias?

Diego Perez Houve sim um adiamento, mas o que eu gosto de dizer é que foi feito um diferimento das entregas. As entregas estavam muito concentradas em quatro etapas. Agora O BC aumentou um pouco o prazo para as entregas das últimas etapas, mas as etapas correntes não tiveram o seu cronograma alterado. A primeira e a segunda estão mantidas, a terceira vai ser fatiada em mais fases e a quarta também.  Isso sinaliza que tem muita discussão acontecendo sobre o que deve ser o Open Banking, e o Banco Central está interessado nessa discussão. O Open Banking é uma estrutura aberta, com interoperabilidade de dados entre instituições financeiras, mas, diferentemente do Pix, não é uma estrutura centralizada, gerida pelo próprio Banco Central. Trata-se uma padronização de mercado para que as instituições que operam no âmbito do Banco Central tenham os seus canais de comunicação abertos para essa transposição de dados entre uma entidade e outra. Esse adiamento está alinhado com a capacidade de entrega das instituições financeiras que são obrigadas a se adequar a esses padrões. O objetivo é que ele tenha adesão, como o Pix teve. Se o Open Banking for liberado antes de as entidades estarem preparadas a tendência é que ele caia no desuso.

DMI – Quais são as tendências para o mercado das fintechs?

Diego Perez – Existe um movimento de fintechtização das atividades não financeiras para que se consiga alcançar eficiência e cortar intermediários. Um exemplo são os marketplaces, os aplicativos de delivery, os aplicativos de transporte urbano que buscam incluir serviços financeiros nas suas atividades para reter os clientes e usuários. Porque esses serviços só se tornam extremamente lucrativos se estiverem posicionados em primeiro lugar. Nesse sentido, empresas de varejo compram fintechs, e fintechs que se tornam muito grandes e querem atuar em outro segmento compram empresas de varejo. O Banco Inter está se tornando um superapp, um aplicativo que entrega outros serviços, o PicPay também. Magazine Luiza compra um monte de empresas e não só fintechs, além de Rappi, Mercado Livre. É um movimento de fintechtização dos serviços financeiros. E o Open Banking está muito conectado com isso. Por meio do Open Banking você vai conseguir entregar a experiência bancária mesmo sem ser um banco, porque ele está trazendo à tona um personagem, um novo ente regulado que é um iniciador de serviços de pagamento, o Pisp, da sigla em inglês para Payment Initiation Service Provider. Uma entidade regulada pelo Banco Central, mas que só faz a conexão entre o mundo financeiro e o não financeiro. O WhatsApp Pay é um Pisp, um iniciador de transação de pagamento que não é um banco, mas que possibilita o envio de dinheiro. O WhatsApp não tem autorização para deter contas de depósito, mas tem conexão com os outros bancos que permitem a transação. Só estamos no começo desta revolução.