Graças aos avanços da tecnologia e regulatórios, empresas de diferentes segmentos passam a fazer parte da arena competitiva ofertando produtos financeiros digitais

Bruno Diniz, co-fundador da Spiralem e head América do Sul da FDATA

Integração e parceria são palavras de ordem na “Nova lógica financeira”, livro recém lançado por Bruno Diniz, co-fundador da Spiralem, professor e head América do Sul na Financial Data & Technology Association (FDATA).

Graças aos avanços da tecnologia e regulatórios, empresas de diferentes segmentos passam a oferecer produtos financeiros digitais e entrar na arena competitiva, alterando a dinâmica do mercado financeiro.

Muito além dos bancos: “essa nova lógica impacta consumidores e permite maior acesso a soluções que antes estavam distantes do dia a dos brasileiros.”

Como fica a competição com a nova lógica financeira considerando a crise política e econômica que o país enfrenta?

 Bruno Diniz – Estamos assistindo um crescimento de investimentos em startups e fintechs, nos últimos tempos, graças ao baixo custo de tecnologia e avanço da regulação no setor financeiro. Há muitos problemas no país hoje, mas também oportunidades para enfrentar essas questões, que dificilmente uma empresa tradicional conseguiria endereçar. Agora surgem empresas de diferentes segmentos que estão começando a incluir oferta de serviços financeiros em seus aplicativos.

Como o consumidor está reagindo a tudo isso?

Bruno Diniz – O consumidor não precisa mais interromper sua jornada do dia a dia para se deslocar até uma instituição financeira, a partir do momento em que empresas de diferentes setores, como seguro, varejo, telefonia entre outros, oferecem produtos financeiros digitais que não deixam nada a dever aos que bancos e fintechs entregam.

Isso já está acontecendo?

O banco Inter, por exemplo, tirou a palavra banco do seu nome para tentar ser uma plataforma que soluciona as dores do dia a dia de seus clientes, oferecendo marketplace, plano de celular, serviços de entrega, etc. A exclusividade de se prestar serviços financeiros deixa de ser apenas dos bancos e isso representa uma tremenda mudança para quem trabalha no mercado financeiro.

As plataformas abertas estão impulsionando essa nova lógica?

 Bruno Diniz – São elementos que se juntam para tornar essa nova lógica realidade. É tudo uma progressão. Antes de o Open Banking ser regulamentado, já havia um movimento voluntário das instituições de se integrarem. É o caso da parceria do Banco do Brasil com a fintech Conta Azul, um dos primeiros cases de um banco tentando se integrar com uma fintech.

Qual é o maior desafio nessa nova lógica para os bancos?

 Bruno Diniz – Os ciclos agora estão acontecendo de forma mais curta e rápida. A necessidade de resposta de uma instituição grande para movimentos rápidos esbarra na questão cultural. Várias instituições estão fazendo movimentos. O  Bradesco adquiriu um pedaço da Dígio do Banco do Brasil para que sua plataforma dialogasse com um público mais jovem.

Os bancos terão de entender que é preciso colocar ofertas não financeira e financeiras de terceiros, assim como entrar no ecossistema de outros players. Como pano de fundo de tudo isso há a regulação, a tecnologia e até o Open Finance que acabará trazendo para o mercado financeiro mais conexão, facilidade de novas ofertas e experiências, portabilizando os dados e as informações financeiras.

Como você vê a questão da inovação aberta nesse processo.

 Bruno Diniz: A forma com que as instituições lidam com inovação, a partir de aquisições, já é considerada antiga. Nessa nova lógica, o banco sai de uma postura verticalizada, em que é responsável por desenvolver e distribuir o produto em seus canais dentro de casa, e assume que há coisas boas sendo feitas por terceiros. Para entrar na nova lógica, é preciso saber jogar o jogo da parceria. Não tem mais como ser bom em tudo.

As instituições sabem fazer análise e cultivar a relação para que o parceiro se beneficie de estar em seu ecossosistema. Um exemplo disso é a parceria entre a fintech Remessa Online com o Nubank para remessa internacional. É melhor para o Nubank se integrar com um parceiro experiente nesse nicho do que criar uma solução do zero. A nova lógica é pautada em uma relação de ‘ganha ganha’.

A tendência então é o setor financeiro se tornar cada vez mais um mercado de nicho?

 Bruno Diniz –  Haverá sim muitas coisas segmentadas, hiperpersonalizadas e os papeis das instituições financeiras serão múltiplos. Em alguns momentos, terão o ecossistema e em outros farão parte de uma outra empresa. Essas conexões, que são várias peças de um lego que se encaixam, vão formar as soluções que fazem sentido para cada cliente. As ofertas dos bancos eram muito pasteurizadas, sem espaço para uma hiper personalização.