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Sandro Reiss, presidente da ABCD Crédito: divulgação

A redução de juros e o aumento da oferta de crédito para o cliente final, principal bandeira da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), desde sua criação em 2016, continuará sendo o mantra da entidade na atual gestão do novo presidente Sandro Reiss.

Para Reiss, a grande revolução do crédito em termos de volume e de impacto ainda está por acontecer no país. “O Brasil é muito carente de crédito, que além da má qualidade, ainda é caro e com experiências ineficazes para o consumidor.”

As fintechs de crédito, que ainda representam 5% do mercado comparadas aos grandes bancos, segundo ele, estão melhorando isso, seja por sua atuação própria, ou por colocarem em cheque o ‘status quo’.

Em entrevista exclusiva ao DMI, Reiss fala sobre as perspectivas para 2022 e das novas oportunidades que surgirão para o setor com o a entrada em operação do Pix agendado e das soluções Buy Now Pay Later.

 

Qual é a participação da fintechs no mercado de crédito hoje?

Sandro Reiss: Infelizmente a maior parte das fintechs de crédito são empresas fechadas que não divulgam seus resultados. E nem todos os créditos concedidos por plataformas eletrônicas são facilmente identificáveis nas estatísticas do Banco Central, dos concedidos de forma tradicional. Estimo que as plataformas de crédito representam 5% do mercado de crédito hoje.

As agendas microeconômicas implementadas pelo Banco Central, como os recebíveis de cartão de crédito, têm contribuído para potencializar a competição no ambiente de crédito?

 Sandro Reiss: De forma mais ampla, as mudanças no ambiente de pagamentos, que foram feitas com a agenda de recebíveis em particular, criaram uma infraestrutura para o fornecimento de crédito mais competitiva. Não precisa mais estar diretamente ligado à originação dos recebíveis de cartão para poder usar esses recebíveis como garantia. Isso permitiu que operações mais baseadas em relacionamento com o cliente pudessem lançar mão desses recebíveis como forma de estender o crédito e competir em um mercado, onde até pouco tempo era difícil estar presente.

Quais são as principais bandeiras da ABCD na nova gestão?

Sandro Reiss: Desde o início da ABCD, defendemos ações que visam reduzir os juros e aumentar a oferta de crédito para o cliente final. E isso se atinge por meio da eficiência do mercado. Hoje somos bem amparados pelas iniciativas do Banco Central. Queremos um ambiente institucional que permite os clientes usarem seus dados e a interoperabilidade do sistema financeiro. Outra agenda forte, mais microeconômica, é remover uma série de ineficiências que existe no processo de cobrança, pagamentos e concessão de crédito. Essa agenda vai se materializando em várias pequenas contribuições.

Qual é o impacto das taxas para a concorrência?

Sandro Reiss: As taxas são um dos elementos importantes da concorrência. As taxas praticadas pelas fintechs em geral são mais baratas que as do sistema bancário como um todo, especialmente se considerados os segmentos de atuação. É fácil falar de taxas em níveis médios e absolutos, mas não existe uma taxa média. Empresas que atuam em segmentos bancarizados ou subancarizados, seja no mundo PF ou PJ, podem ter taxas mais altas oferecidas por fintechs de crédito do que as praticadas pelos bancos, pois essas fintechs entregam um serviço para um público que ainda não conta com essa oferta nos bancos.

As taxas são cobradas, desde o perfil do cliente ao perfil do produto. Cliente de alto risco em um crédito rotativo PF paga as vezes 30% ao mês de juros no sistema financeiro. Já um cliente de baixo risco no crédito rotativo paga 2% a 3% ao mês. Tem variações muito grande dentro do sistema bancário. O ambiente de dados não permite a segmentação de forma exata. Dá para olhar por produto, mas não por cliente.

A ABCD tem alguma iniciativa para tratar esse problema da inclusão financeira?

 Sandro Reiss: Não temos iniciativa padronizada para isso e nem deveríamos ter, pois somos uma associação de classe. O que temos é um conjunto de premissas operacionais que garantem que os associados trabalhem com a mesma ética e o mesmo espírito de atuação, como o tema do suitability ( processo de adequação dos investimentos ao perfil do investidor), que é um padrão de ouro no contexto de crédito.

Quais são os impactos do cenário macroeconômico de inflação e juros elevados para o crédito?

Sandro Reiss: Isso tem um impacto direto sobre as operações de crédito digital. A maioria das empresas que atuam no crédito digital tem dois efeitos negativos: a redução do poder de compra desgastado pela inflação e o custo elevado de capital. A maioria das operações de crédito digital se financia via mercado de capitais. Esses dois fatores pressionam fortemente a rentabilidade das carteiras de crédito e como tal incentivam uma redução da oferta.

Quais são as expectativas para 2022?

 Sandro Reiss: É perigoso fazer previsões para um ano que será bastante volátil. Não parece haver indícios de que indicadores de emprego, renda, inflação e juros vão divergir do consenso de mercado. A grande pergunta é o que vem depois de 2022, que deverá ser de alta volatilidade, ainda com pressão inflacionária e de juros. É um ano de continuidade da retomada de consumo, isso que é positivo para vários aspectos da carteira de crédito.

Quais os impactos do Pix em relação ao crédito?

Com a introdução do Pix, o custo transacional de conceber e cobrar crédito mudou de forma significativa, pelo fato de poder usar uma infraestrutura de pagamento instantânea muito menos custosa da que existia anteriormente. E o Open Banking, ainda em desenvolvimento, já oferece ganhos relevantes no ambiente de dados e de relacionamento com os clientes. Ainda tem muita coisa para acontecer dentro o Open Banking e vai continuar essa tendência.

O varejo teve um papel relevante na concessão de crédito para o consumidor brasileiro. Nesse sistema de plataformas abertas surgem outras modalidades de crédito ao consumidor?

Sandro Reiss: O crédito na modalidade crediário que é feita pelos varejistas ainda é cara hoje em dia. Mas estão surgindo soluções muito interessantes no ambiente do chamado Buy Now Pay Later (BNPL), que são mais modernas que o tradicional crediário. Com a chegada do Pix Agendado, vai surgir uma nova onda de inovação no financiamento ao consumidor no ponto de venda. Quando há a  possibilidade de fazer um plano de pagamento baseado em Pix, cria-se uma alternativa ao parcelamento no cartão, que combinado com esses modelos BNPL, devem causar uma boa mudança no mercado de crédito ao consumidor na ponta varejista. E a tendência é ver mais varejistas sendo parceiros das fintechs que competindo propriamente.