Eduardo Salvio, head de vendas Google Cloud Brasil – Crédito: Divulgação

A notícia foi atualizada às 20 h do dia 1 de junho.

O Google Cloud Brasil criou uma área exclusiva para o mercado de nativos digitais e tem na carteira nomes como Nubank, EBANX, BEXS, Cerc e BV. Hoje, 13 dos 16 unicórnios brasileiros usam Google Workspace. Nem por isso a gigante de tecnologia deixa de estar atenta às oportunidades dos grandes bancos e aposta no conceito de multicloud. Eduardo Salvio, head de vendas para empresas nativos digitais do Google Cloud no Brasil, diz que mesmo bancos como o Itaú, que fechou um contrato de dez anos com a AWS, não deixam de contar com serviços de mais de uma nuvem.

Ele acredita que o movimento do Itaú vai influenciar todo o mercado, incluindo outros grandes bancos como Bradesco, Banco do Brasil e Santander, que também têm acelerado suas estratégias para a nuvem. Nesta entrevista, ele conta um pouco da estratégia do Google Cloud, e demonstra que a tecnologia de nuvem vai muito além da simples hospedagem.

DMI: Como a computação na nuvem e os algoritmos estão ajudando o novo ecossistema financeiro digital?

Eduardo: O mundo está mudando muito rápido e o mercado financeiro sempre esteve presente em todos os setores. Mas estamos passando por um arcabouço de transformações no sistema financeiro. Há o Pix, o Open Banking, o Cadastro Positivo, Normativa para Recebíveis de Cartões. Essas mudanças vêm muito conectadas com a nuvem.

Além disso, há quatro megatendências: o consumidor conectado; segurança e confiança; mobilização da demanda, com a explosão das fintechs e techs de todas as áreas; e busca por simplicidade. Quando unimos essas quatro megatendências, a cloud é habilitadora em vários pontos. Um exemplo é o cadastro positivo, em que os birôs de crédito analisavam 7% de pessoas negativadas, enquanto que, para o acompanhamento positivo, são mais de 70% da população bancarizada. Isso gera uma explosão de dados, saindo de 14 milhões para mais de 140 milhões de brasileiros.

DMI: O Google Cloud tem clientes nesse segmento?

Eduardo: Sim, com a chegada do Cadastro Positivo, a Boavista concluiu que devia mudar o modelo de negócio, pois o custo computacional ficaria inviável. Em 2019, iniciamos a migração de várias tecnologias da Boavista e já atingimos 70% dos sistemas.

DMI: Qual o impacto do Open Banking?

Eduardo: A primeira fase entrou no ar no início do ano. O BV é um caso de sucesso porque vai fazer a migração completa. E o banco já tecnologia para open banking, pois vinha em uma jornada de construir APIs.  Temos um produto, o APIGEE, que tem sido um diferencial no mercado para monetizar o novo modelo de sistema financeiro. Isso vai exigir tirar inteligência dos dados. O BV já roda o Pix e o open banking conosco e vai migrar 99% de seus sistemas, inclusive o core bancário. Eles estão passando por um processo amplo de transformação digital tanto no banco de investimentos quanto no banco digital.

DMI: Há outros casos de migração?

Eduardo: O Banco BS2 era um banco tradicional que criou um banco digital e está trabalhando em inovação digital conosco. A ideia é integrar os serviços por meio de uma jornada da inovação para ganhar agilidade. Tiram insights baseados em dados e inteligência artificial. Também fizemos um plano de capacitação, pois o mercado tem deficiência e pouca quantidade de profissionais com conhecimento de cloud.

DMI: Como está o Brasil na região da América Latina?

Eduardo: Criamos no Brasil a área das empresas nativas digitais como as maiores fintechs. O Brasil historicamente é inovador no sistema financeiro até por nossa experiência de hiperinflação. O Google Cloud tem crescido muito no Brasil. Cloud ajuda muito e os investimentos em nuvem estão crescendo 36% no Brasil, de acordo com dados da consultoria IDC.

DMI: Os hackers brasileiros também são talentosos…

Eduardo: Muito. Os times do sistema financeiro ficam sempre alertas.

DMI: Esta área de nativos digitais é cross indústria? Vocês também têm segmentos verticais?

Eduardo: Sim temos verticais de mercado financeiro tradicional; varejo, telco e media, consumo e manufatura. O setor financeiro é estratégico globalmente, mas depende de especificidades de cada país. No Brasil, temos clientes como Nubank, EBANX, BEXS, CERC. O EBANX é um unicórnio de meios de pagamentos, a BEXS, é um banco digital na área de câmbio, a CERC é uma fintech de recebíveis.

DMI: É um espectro bem diversificado.

Eduardo: Toda a cadeia de valor tem deficiências e as startups geralmente buscam sanar uma deficiência de negócio. E entram com grande know-how de negócio e de tecnologia. Nossa tecnologia é muito forte na área de dados e inteligência artificial. Hoje, não se consegue atender um consumidor conectado, que quer atendimento personalizado, com facilidade e segurança, se não usar essas tecnologias.

DMI: Em resumo, o Google Cloud não oferece apenas hospedagem.

Eduardo: Oferecemos uma plataforma de tecnologia na nuvem que é muito rica e com vários componentes de inteligência artificial e análise de dados. Um dos diferenciais é facilitar o uso por meio de tecnologias como AutoML, permitindo a utilização de machine learning, mesmo por aqueles que não são cientistas de dados. A mesma tecnologia que o Itaú usa, as fintechs podem usar.

DMI: O Itaú também tem estratégia multicloud apesar do contrato amplo com a AWS. Você acha que essa decisão radical do Itaú vai influenciar outros grandes bancos?

Eduardo: Bancos digitais como o Nubank também são grandes. O Itaú fez esse movimento porque está sendo desafiado. Os grandes bancos são muito sólidos há muitos anos, mas têm desafios. A decisão estratégica do Itaú está movimentando os outros bancos que já vêm tendo iniciativas para a nuvem como Bradesco e o Santander. Acreditamos que adotarão nuvem híbrida, pois há aspectos regulatórios. Muitos bancos estão usando nossas bases de inteligência artificial, mas isso exige treinamento. Todos os bancos estão se mexendo e não vão parar.

DMI: E as startups?

Eduardo: Um total de 13 dos 16 unicórnios brasileiros usam Google Workspace e isso é extremamente relevante porque essas empresas estão crescendo muito. E há uma grande movimentação. A Stone comprou a Linx; a Totvs comprou a RD Station. Há uma inteligência estratégica no país muito relevante e vivemos um momento muito bom no sistema financeiro. Há ainda uma transformação de toda a economia numa base digital, liderada pelo Banco Central.