Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central- Crédito Flickr BC

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central – Foto: José Cruz/Agência Brasil

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, divulgou na tarde desta terça-feira, 11, a carta aberta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para justificar o furo da meta de inflação em 2021. A inflação do ano, que foi divulgada nesta manhã pelo IBGE, fechou em 10,06% e bem acima da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O indicador poderia chegar até o máximo de 5,25%.

Campos Neto atribuiu o estouro na meta de inflação a um movimento observado também em outros países. “De fato, a aceleração significativa da inflação em 2021 para níveis superiores às metas foi um fenômeno global, atingindo a maioria dos países avançados e emergentes”, pontua.

“O principal fator para o desvio de 6,31 p.p. da inflação em relação à meta adveio da inflação importada, com contribuição de 4,38 p.p., cerca de 69% do desvio. Abrindo esse termo, destacam-se as contribuições de 2,95 p.p. do preço do petróleo, 0,71 p.p. das commodities em geral e 0,44 p.p. da taxa de câmbio”, destaca a carta que também se refere à escassez hídrica e aos desequilíbrios entre demanda e oferta de insumos.

O presidente do BC observa que os preços de commodities, agropecuárias, metálicas e energéticas, depois de serem afetados negativamente no início da pandemia da Covid-19 no primeiro trimestre de 2020, iniciaram processo de elevação no terceiro trimestre daquele ano, o que continuou ao longo de 2021, com destaque para o preço do petróleo.

Sobre os gargalos nas cadeias produtivas globais, o presidente do BC destacou os “esgotamentos de estoques de insumos, escassez de semicondutores e aumentos de prazos de entrega e de preços dos fretes internacionais”.

No caso da bandeira escassez hídrica, que adiciona R$ 14,20 às contas de luz dos brasileiros para cada 100 kWh consumidos, Campos Neto lembra que o fraco regime de chuvas levou ao acionamento das termelétricas ao longo de 2021, que têm um custo mais elevado, resultando em aumento expressivo das tarifas de energia elétrica.

Providências

Para 2022, o centro da meta de inflação é ​3,50%, sendo cumprida caso fique entre ​​2,00% e 5,00%. Campos Neto diz que as projeções do BC são de que a inflação entre em trajetória de queda já no início de 2022, terminando o ano em 4,7%. “O BC tem calibrado a taxa básica de juros, e continuará a fazê-lo, com vistas ao cumprimento das metas para a inflação estabelecidas pelo CMN”, enfatiza o documento, que explica a opção contracionista do Copom.

“Vale notar que o cenário econômico de recuperação posterior à pandemia de Covid-19 tem sido marcado por incerteza e volatilidade acima das usuais, o que tem se refletido nas surpresas inflacionárias de todo o mundo. Considerando a taxa Selic acumulada quatro trimestres à frente, descontada das expectativas de inflação, o crescimento da trajetória da Selic nominal foi mais acentuado do que o aumento das expectativas de inflação na medida considerada. Esse movimento significou a passagem da política monetária do campo expansionista para o território contracionista”, afirma o documento.

O presidente do BC ressalta que o Comitê de Política Monetária (Copom) já sinalizou ser “apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista”. Ou seja, os juros devem subir ainda mais neste ano, numa tentativa de segurar os preços. “O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, escreve Campos Neto.

Nesse cenário, em 2022, antevê o documento, a inflação ainda se mantêm superior à meta, embora dentro do intervalo de tolerância. O mercado financeiro, no entanto, conforme Boletim Focus desta semana, espera que o indicador fique acima do máximo permitido no intervalo de tolerância, projetando já no início do ano alta de preços de 5,03% em 2022.