Leve recria consignado visando bem-estar financeiro - Crédito: Divulgação

Gustavo Raposo, CEO e fundador da Leve – Crédito: Divulgação

A Fintech Leve repaginou o conceito de crédito consignado, para fugir ao estigma do produto e, ao mesmo tempo, torná-lo mais socialmente responsável. A empresa iniciou as operações em 2020 ainda no modelo tradicional de consignado, mas no início do ano, deu uma guinada (pivotou, no jargão de empreendedorismo), para um modelo B2B2C, atendendo diretamente as empresas que a contratam como um benefício a mais de educação financeira de seus colaboradores.

O novo modelo de negócios chamou a atenção do mercado. A Leve soma mais de R$ 11 milhões (US$ 2,2 milhões) em investimentos, entre recursos próprios e aportes de empresas como a GFC, Canary, Caravela Capital e alguns investidores anjos, entre eles Patrick Sigrist e Guilherme Bonifácio, fundadores do iFood.

“Quando entramos numa companhia que opera apenas com consignado, temos apenas 15% da base de colaboradores usando. E 30% deles usam mais de uma vez. Esse é alguém que precisa de ajuda e não estamos ajudando. Quando entramos com o serviço de consultoria financeira, gero mais uma linha de receita e tiro essa pessoa da situação vulnerável em que se encontra. O crédito fica mais saudável com menor risco de inadimplência”, explica Gustavo Raposo, CEO e fundador da Leve

Ele observa que para as empresas é também positivo porque as preocupações financeiras acabam afetando a produtividade do colaborador ou ele muda de emprego por um valor financeiro a mais ainda que pequeno. Atuar no bem-estar financeiro dos funcionários impacta positivamente na produtividade e na retenção.

“Eu já havia investido em outra statup, a Arvus, maior empresa de tecnologia para agricultura do Brasil, vendida para a multinacional Hexagon em 2014. Meu sócio, João Augusto Zaratine, veio da Conta Azul. Depois que saí da Hexagon, a partir de um problema com a pessoa que trabalha na minha casa, passei a pesquisar como esse segmento se relaciona com o dinheiro. Vi que ela não tinha opção de crédito e não sabia como escolher o melhor produto. A Leve nasceu com o propósito de melhorar a vida das pessoas”, conta Raposo.

A fintech oferece a combinação de um assistente pessoal a uma rede de soluções financeiras para contornar as dificuldades, como renegociar dívidas ou “limpar” o nome no Serasa. O objetivo é permitir que os colaboradores, que hoje precisam de ajuda com finanças, voltem a enxergar possibilidades para a realização de seus planos.

Para isso, a Leve é contratada por empresas de segmentos e portes variados – entre as quais ifood, MaxMilhas, Amaro, GoCase, RdStation, Grupo Moura, WAP, Imaginarium, Movidesk e Pipefy e Universidade Estácio de Sá –, que disponibilizam o benefício aos seus profissionais. A fitech é remunerada pelo número de colaboradores e pelos produtos que oferece para melhorar a gestão financeira dos endividados ou para permitir a realização de projetos como a compra de um carro ou de um imóvel.

A Leve faz o monitoramento da saúde financeira dos colaboradores e reporta os dados aos RHs das empresas. De acordo com Raposo, um problema comum em boa parte da população é a falta de conhecimento básico sobre finanças pessoais, resultando em má gestão do dinheiro, o que afeta e impacta negativamente na produtividade do trabalho.

O CEO da Leve, diz que nem sempre foi assim. Quando lançada em 2020, a fintech tinha outro modelo de negócio, baseado em adiantamento de salário por meio da oferta de crédito consignado. Alguns meses após o início das operações, os sócios perceberam que, apesar de ser uma boa ferramenta, o produto só funcionava se fosse usado adequadamente e em conjunto com um plano maior. Caso contrário, a solução poderia até piorar a situação financeira da pessoa. Decidiram, assim, pivotar no início de 2021.

“Muito embora o consignado é um benefício regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), tem uma imagem deturpada por causa do desserviço que os bancos fizeram. Os correspondentes bancários acabam fazendo o trabalho sujo (de abortar insistentemente as pessoas e oferecer vários empréstimos). Meu negócio é ajudar as pessoas, e assim mudamos a forma como nos relacionamos com o RH das empresas e com os colaboradores, vendendo um benefício de bem-estar financeiro”, destaca Raposo.

As empresas pagam por colaborador, que pode entrar no aplicativo, informar alguns dados e, com base nisso, a plataforma libera o acesso ao consultor, que já sabe algo do funcionário. A ideia é pegá-lo pela mão e iniciar uma jornada de educação financeira, conscientizando-o de que ele deve começar a economizar, para criar uma reserva para emergência. Para aquele que está comprando a casa, o serviço visa a ajudá-lo a encontrar o melhor financiamento e não se obrigar a venda casada de outros produtos. Normalmente 30% dos colaboradores recorrem ao consultor.

“Quando a pessoa precisa de um crédito, continuamos operando nossos produtos, mas esse não é o objetivo principal. Muita gente nos procura porque quer comprar um carro, e conversando, mostramos que ela não precisa trocar de carros imediatamente e sim fazer uma reserva de emergência. Nós achamos que a sociedade não vai mais aceitar empresas que só deem lucro, é preciso devolver algo para a sociedade. E o mercado financeiro ainda não tem essa maturidade. Nosso pioneirismo está nisso”, afirma Raposo.