Sílvia Scorsato, presidente da ABBC - Crédito: Divulgação

Sílvia Scorsato, presidente da ABBC – Crédito: Divulgação

Enquanto o mundo se prepara para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a Cop26, que acontece em Glasgow, na Escócia, no mês de novembro, sociedade civil e iniciativa privada cobram de seus governos medidas concretas para o enfrentamento do aquecimento global.

A situação do Brasil é delicada, na opinião de Sílvia Scorsato, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), mas ela acredita que as novas normas anunciadas pelo Banco Central para a agenda de sustentabilidade são precursoras e propõem um direcionamento para o mercado financeiro na transformação da economia.

Sílvia Scorsato assumiu a ABBC em abril deste ano sinalizando o foco em princípios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) em sua gestão. Em entrevista exclusiva ao Digital Money Informe ela comenta, entre outros assuntos, a regulação recente do Banco Central, que vê como positiva.

DMI – Como a ABBC vê as medidas anunciadas pelo Banco Central dentro da agenda de sustentabilidade?

Sílvia Scorsato – A ABBC vê com muito bons olhos essa regulação porque ela é, na verdade, uma questão de sobrevivência dos negócios financeiros e dos outros segmentos. A gente abre os jornais todos os dias e se depara com essas questões sociais, ambientais e agora, mais gravemente, climáticas e o mercado financeiro não deixa de estar inserido dentro da sociedade e ser um grande agente que pode causar transformação. Uma vez regulado, incentiva os bancos a trabalhar o tema, fomentando atividades que estejam ligadas à economia de baixo carbono. Então, a regulação vem no momento certo, ela vem acelerar esse processo.

DMI – Que tipo de impacto que essas regras vão trazer ao mercado financeiro?

Sílvia Scorsato – Na verdade, os bancos já tinham uma regulamentação, que tratava mais de risco socioambiental. Era uma norma que os bancos já tinham de cumprir, na análise da carteira de clientes, nas concessões de empréstimos. O que muda agora, de fato, primeiro é que essa norma é mais específica e mais profunda, ela dá algumas diretrizes, ela dá conceitos e obriga as instituições a terem políticas mais específicas com relação ao tema e, principalmente, o que muda é a necessidade de divulgação. Uma das normas divulgadas pelo BC é justamente relativa a como as instituições financeiras vão divulgar esses parâmetros, essas ações ESG que são feitas anualmente. E os bancos vão ter que trabalhar com a questão integrada de risco.

DMI – O que significa essa questão integrada?

Sílvia Scorsato – Significa que todos os riscos que o banco já olhava, risco de liquidez, mercado, taxa de juros, risco operacional, risco legal, terão que ser apresentados junto ao viés do risco socioambiental e climático para se ter uma gestão única desses riscos. Essa questão integrada de riscos é um primeiro desafio para os bancos, mas eu vejo que todos vão lidar de uma forma simples. Já a questão da divulgação é um desafio a médio prazo, porque a legislação tem prazo para entrar em vigor, mas elas são superimportantes porque vão, de certa forma, caminhar para acabar com a assimetria informacional. Hoje, como ninguém é obrigado a divulgar, quem divulga o faz com alguma subjetividade, de acordo com parâmetros próprios, então não existe a comparabilidade. A partir do momento que as instituições estarão restritas a uma legislação específica, com regras de divulgação, o mercado todo caminhará para uma comparabilidade maior.

DMI – Como o Brasil chega à COP26?

Sílvia Scorsato – Essa é uma situação bem delicada em função de algumas posturas, o Brasil não é bem-visto em função de algumas medidas que têm sido adotadas. Eu acho que essa legislação, pelo menos o Banco Central foi precursor entre os órgãos do governo, serve de direcionamento. Na verdade, os bancos que são os grandes agentes econômicos, que detém o poderio econômico, podem e devem começar a incentivar a transformação da economia. Como? Fazendo financiamentos destinados a isso.

DMI – Empresários e investidores globais cobram dos governos ações ambientais.

Sílvia Scorsato – Acho que o ESG tem que ser trabalhado em todas as frentes. Obviamente que o governo tem um papel importantíssimo e deve ter as políticas públicas adequadas para conseguirmos avançar nessas agendas. Temos hoje as questões de energia, questões climáticas, crise hídrica, tem uma série de questões delicadas, também no âmbito social, mas acho que a sociedade civil e as empresas também estão sendo impulsionadas a ter essa agenda, elas são cobradas hoje não só pelos clientes, como também pelos investidores, muitos investidores estrangeiros querem saber como estão as práticas ESG, como são destinados os recursos. A cobrança é feita por clientes, por investidores, pela sociedade e pelos funcionários, que cada vez mais querem trabalhar em empresas que estão alinhadas aos seus propósitos, principalmente os novos empregados, mais jovens, essa nova geração é mais ativa nessa questão.

DMI – O Brasil corre risco de ter menos investimento estrangeiros em função das questões ambientais?

Sílvia Scorsato – É claro. Na medida em você não incentiva ou muito pelo contrário toma ações em sentido oposto pode haver sim uma falta de investimentos estrangeiros, sem dúvida nenhuma. Eu acho que isso tem que ser trabalhado, ainda há espaço para o trabalho e tem que ser bem-feito.

DMI – A sua gestão na ABBC tem foco no ESG.

Sílvia Scorsato – A gestão passada já estava caminhando para essa agenda. Com a minha eleição e a do Cássio Fernando Von Gal, tomamos isso como uma pauta estratégica para a entidade, mas também temos de trabalhar a competitividade, inovação, segurança cibernética, que está preocupando muito o segmento. A pauta ESG é muito importante e já fizemos o manifesto da ABBC, posicionando a entidade com relação ao tema. Terminamos agora uma pesquisa entre as nossas associadas e, em breve, ela será divulgada para a sabermos exatamente como está cada uma das empresas. A ABBC é uma entidade plural, ela tem fintechs, instituições de pagamentos, cooperativas, bancos tradicionais, e essas informações são fundamentais para sabermos como a entidade pode aportar mais valor. Não queremos simplesmente surfar na onda do ESG, queremos levar mais valor para o mercado financeiro, onde há muitas oportunidades para fomentar uma economia de baixo carbono.