Conceito de fintechs a partir de uma série de ícones - Crédito: Freepik

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Os números são impressionantes. O montante de recursos direcionados em nove meses para empresas nascentes no Brasil, as startups (entre elas as fintechs) , por fundos e investidores de venture capital atingiu um recorde até setembro deste ano de R$ 33,5 bilhões, o que supera em três vezes o aportado no mesmo período do ano passado. Os números são da pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap) em parceria com a KPMG.

Ainda de acordo com a pesquisa da associação, no terceiro trimestre de 2021, fundos de venture capital investiram em 85 empresas, ante 66 em igual intervalo do ano passado. Foram destinados para esses negócios R$ 11,1 bilhões, montante 109% maior do que o registrado no mesmo período de 2020.

Grande parte desses investimentos em startups estão direcionados nas fintechs, as empresas de negócios financeiros, que reúnem vários dos unicórnios brasileiros. A alta demanda dos investidores por empresas nascentes de tecnologia traz, no entanto, uma valorização nos preços desses ativos um pouco exagerada na opinião de muitos especialistas.

A queda nos papéis de empresas como Stone e PagSeguro, negociados na Bolsa americana Nasdaq, que acumulam perdas de 72% e 39%, respectivamente, nos últimos seis meses, faz com que analistas pensem em uma ‘bolha’ das fintechs, prestes a explodir.

Questões regulatórias

Para Diego Perez, presidente da ABFintechs, a pandemia da Covid-19 foi o que mais impactou a performance das fintechs e startups no país. “Discordo que haja a bolha das fintechs, o que está havendo é um percalço. O evento específico da Stone, com resultados abaixo do esperado, não pode servir de parâmetro para traçar um diagnóstico do mercado de fintechs”, afirmou.

Conforme Pérez, há também uma questão regulatória que o Banco Central está prestes a soltar. Trata-se de uma revisão na exigência de capital mínimo das instituições de pagamento, especialmente, aquelas que compõem conglomerados para tentar de alguma forma harmonizar as regras com as instituições financeiras tradicionais.

Isso vem trazendo um cenário de incertezas, se a lucratividade das fintechs de pagamento que operam diversos produtos vai se manter ou não. Há várias regras pontuais que estão sendo ajustadas e que podem afetar a lucratividade dessas grandes fintechs.

Em razão disso, o mercado reage com pessimismo. Antes mesmo de qualquer anúncio oficial do Banco Central, os investidores preferem não esperar muito. “Na minha percepção houve apenas uma queda repentina”, reflete Diego Perez.

SoftBank impulsionou o mercado

A fé cega no empreendedor bem-sucedido começa a ser questionada no mercado das fintechs e startups do país, afirma Carlos Augusto Oliveira, CEO da CertDox. O mercado, segundo ele, estava em um ritmo de supervalorização muito impulsionado pelo Softbank, que entrou com investimentos elevados no país.

“Boa parte dos investidores agora estão revendo se o crescimento das startups vai continuar se reproduzindo no futuro, ou seja, se esse modelo de crescimento exponencial vai permanecer”, observa Oliveira.

Para ele, a aceleração do Pix, que com um ano no ar já movimentou mais de R$ 4 trilhões, traz impactos para as instituições de pagamento. “O Pix está começando a disputar com o cartão de débito e as maquininhas passam a não ser tão relevantes mais”, afirma Oliveira.

Na percepção dos investidores, se uma empresa do porte da Stone pode dar um prejuízo grande, imagina as demais e deram um passo atrás nos investimentos. A tendência agora, segundo Oliveira, é discutir se os preços estão adequados de fato.

Que bolha?

“Eu não entendo que haja uma bolha. O ponto pacífico é que as fintechs se definiram como um nicho de investimento. Várias das startups começaram a se estruturar como grandes empresas, a exemplo do Nubank, e há muitos recursos disponíveis para venture capital”, analisa Fábio Póvoa, sócio e investidor líder do Smart Money Ventures e co-fundador da Movile/iFood.

Para ele, o nicho de startups de serviços financeiros é muito amplo, com disparidade de preços, bancos atendendo mal os clientes, um cenário pronto para a disrupção. “Se soma a isso o uso de tecnologias para criar novas soluções e a disponibilidade de muitos recursos para investimentos. Isso faz com que os deals subam seus valuations. Poucos alvos para investimento e um volume crescente de recursos. Se há uma definição de bolha ou não você só sabe depois que ela estourar”, ironiza.

Ajuste no mercado

José Luiz Rodrigues, sócio titular da JL Rodrigues&Consultores e membro do conselho da ABfintechs, não acredita em bolha, prefere dizer que o mercado está se ajustando. “O mercado brasileiro tem mais de mil fintechs e um terço delas são de pagamento, outro terço de crédito e o restante é variado, seja de seguros, backoffice, entre outros. Isso significa que tem muita gente fazendo a mesma coisa e o mercado está se equilibrando”, reflete.

José Luiz concorda que a precificação das fintechs está muito elevada e o momento é de procura por parte dos investidores. “Estamos passando por um momento complicado porque estamos com uma credibilidade política baixa e os investimentos externos estão diminuindo, mas o mercado continua aquecido”, afirma.

Segundo ele, o Open Banking está abrindo espaço para muitos novos negócios, para muitas oportunidades nesse mercado, justamente em função do cliente. “O grande valor que se tem hoje é o cliente, esse é o cara. Você tem que conhecer o perfil desse cliente. Se você quiser produto de prateleira não vai ter sucesso. Você tem que trabalhar de acordo com o perfil de clientela, entregar o que o cliente quer receber”, sentencia.