Por Daniel Arraes*

Imagine que um consumidor tenha interesse em realizar uma viagem de férias. Existem muitas coisas que ele deve fazer para realizar esse desejo, começando por reunir os recursos financeiros. Agora, imagine que uma empresa do mundo digital possa ter acesso a vários dados desse cliente como, por exemplo, suas postagens nas redes sociais, transações bancárias e de cartão de crédito, apólices de seguro, incluindo seguro médico, programas de milhagem e outras informações – tudo isso seguramente autorizado por ele.

Usando Inteligência Artificial para análise de toda essa quantidade de dados, essa empresa pode ser capaz de montar a viagem perfeita para nosso consumidor, conhecendo suas preferências e combinando produtos e serviços de várias outras companhias: encontrar a melhor passagem aérea, sugerindo inclusive o uso de milhas, providenciar as reservas de hotel, agendar passeios, reservar restaurantes, contratar seguro de viagem e reservar os transportes necessários. E, além de tudo, montar um plano de pagamentos que caiba no orçamento do cliente, utilizando os recursos que ele possui em suas várias contas bancárias, seus limites de crédito e ajustando tudo ao seu comportamento de gastos. Tudo em segundos, num ambiente seguro e livre de qualquer complicação.

De fato, os primeiros passos já estão sendo dados em direção a esse “consultor digital pessoal”, que vai conhecer nossos hábitos e desejos melhor do que nós mesmos.

O Open Banking brasileiro já está em processo de implementação e permite que o consumidor compartilhe seu histórico de transações financeiras de forma segura. Com isso, melhores produtos financeiros estarão ao alcance de todos. Uma outra novidade que já está a caminho é o Open Insurance, que permitirá o compartilhamento de dados sobre seguros e previdência, facilitando o acesso da população a essa gama de produtos. Juntos, Open Banking e Open Insurance formam o que chamamos de Open Finance, um sistema de compartilhamento de informações sobre a vida financeira do cliente que permite a oferta de produtos e serviços moldados ao estilo e preferência de cada pessoa, levando em conta seu histórico de transações.

Para as empresas, o Open Finance oferece também um mundo de oportunidades. As dificuldades e barreiras para a entrada de uma nova empresa diminuem à medida que o histórico de dados pode ser acessado por qualquer empresa, desde que devidamente e seguramente autorizado pelo consumidor. Um princípio importante que norteia esses conceitos “Open” é a reciprocidade – uma empresa que acessa informações de uma pessoa também deve, obrigatoriamente, compartilhar os dados que possui e coletou sobre esse consumidor, uma vez autorizado esse compartilhamento.

Além disso, o Open Finance favorece a criação de um ambiente de negócios mais competitivo e inclusivo, que pode rapidamente romper dificuldades históricas e democratizar o acesso aos serviços financeiros.

No entanto, o fator mais importante para que esse novo ambiente de negócios tenha sucesso é engajar e ganhar a confiança do consumidor. Já está em vigor no Brasil uma legislação para proteção de informações pessoais, a LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados. Essa lei estabelece que os dados são de propriedade do cidadão e somente podem ser utilizados mediante expressa autorização do mesmo e para fins específicos. Essa lei é um componente fundamental que embute segurança ao sistema todo.

À medida que o consumidor perceber que o compartilhamento veio para beneficiá-lo, através de serviços mais adaptados às suas necessidades e preferências, além de uma competição de mercado que favorece preços mais justos, a tendência é que exista uma adoção gradativa e cada vez mais abrangente do Open Finance.

Assim como era difícil imaginar a atual variedade de serviços digitais quando a Internet surgiu, nos anos noventa do século passado, também não somos capazes de vislumbrar agora todo o mundo novo de serviços, produtos, negócios e opções que devem se apresentar para o consumidor com o surgimento do Open Data. Estamos ainda nos momentos iniciais desse novo conceito e podemos esperar que muitas ideias de negócio ainda não existentes venham a surgir no futuro, porém os fundamentos já estão lançados.

 

*Daniel Arraes é diretor de Desenvolvimento de Negócios da FICO para a América Latina