Eduardo Chedid, vice-presidente de serviços financeiros do PicPay – Crédito divulgação

Por um valor não revelado, mas após uma capitalização de R$ 3 bilhões em três anos do controlador – a holding J&F, da família Batista –, o PicPay adquiriu, na semana passada, 100% do controle da Guiabolso, para alguns, a noiva mais vistosa do mercado. Para se ter uma ideia do valor da transação, investidores como QED Investors, Kaszek Ventures, Endeavor Catalyst, Ribbit Capital e International Finance Corporatione Vostok, que capitalizaram em US$ 80 milhões a Guiabolso, em cinco rodadas desde 2012, deixaram a empresa realizando o investimento “muito satisfeitas”, segundo Thiago Alvarez, fundador do Guiabolso.

A escala do PicPay – que tem 55 milhões de usuários – foi um dos fatores que contribuíram para o aceite de Alvarez, que, após a aquisição, se juntará ao time do PicPay como diretor responsável por open banking.

Eduardo Chedid, vice-presidente de serviços financeiros do PicPay, destaca a curiosa coincidência no perfil das duas empresas. Ambas nasceram em 2012 com a bandeira de plataformas abertas. Da mesma forma que o Guiabolso foi precursora do Open Banking, o PicPay, iniciou as operações com um sistema de pagamento entre pessoas via QRCode, um precursor do Pix.

Nesta entrevista, Eduard Chedid e Thiago Alvarez explicam como será a integração e as sinergias que poderão ser obtidas entre empresas com cultura muito semelhante.

A PicPay Store, loja do PicPay anunciou  que passa a oferecer uma a opção de compra com cashback, além do marketplace. Com a novidade, usuários podem fazer compras nos maiores e-commerce do País e receber até 13% do dinheiro de volta.

DMI: O PicPay estava em vias de fazer um IPO, mas desistiu. De onde vieram os recursos e quanto custou a aquisição?

Eduardo Chedid: Não divulgamos o valor da transação. Decidimos adiar o IPO e a J&F se comprometeu a capitalizar a empresa em até R$ 3 bilhões, de modo que a gente consiga implementar o plano da mesma forma que faríamos se tivéssemos concluído o IPO. A melhor prova disso é a própria aquisição do Guiabolso, que era um sonho antigo. Sempre que pensávamos quais eram as coisas que poderiam acelerar o nosso plano, com toda certeza o Guiabolso era uma delas. Com o Guiabolso poderemos ser protagonistas em open banking. Poderíamos ganhar a expertise, pouco a pouco, mas nada melhor do que contar com alguém que desenvolveu o open banking antes do Open Banking.

DMI: Quando foi criada o PicPay e como chegou a esse porte?

Eduardo Chedid: O PicPay foi criada em 2012 – no mesmo  ano da Guiabolso – por três amigos em Vitória (ES) e tinha um produto principal, que era um pagamento entre pessoas via QRCode. Podemos dizer que foi um precursor do Pix, assim como o Guiabolso foi o precursor do Open Banking. Em 2015, a empresa foi adquirida pelo Banco Original, e o controlador passou a ser a J&F, que também controla o Original. O produto principal, de pagamento peer to peer entre pessoas evoluiu para pagamento entre negócios. Era uma carteira digital, mas desde o princípio com recursos de social. O usuário poderia seguir um amigo, enviar dinheiro ou ver o que ele estava comprando e curtir. Isso nasceu no mundo muito tempo depois com empresas como a Venmo que nasceram com a mesma proposta e com social.

DMI: O PicPay faz empréstimo peer to peer? Tem licença SEP – Sociedade de Crédito entre Pessoas?

Eduardo Chedid: Não temos, usamos a da Crednovo. Continuamos com a carteira digital para pagamentos entre pessoas e entre pessoas e empresas; pagamento de contas. Também temos marketplace de serviços financeiros, por meio do qual oferecemos cartão de crédito, empréstimo pessoal, plataforma de peer to peer landing. Mas não somos nunca os donos dos produtos. Há um emissor paras os cartões; o empréstimo pessoal é de algum banco. Empacoto e distribuo para meus usuários, atuando como uma plataforma aberta que oferece diferentes produtos de diferentes parceiros. E recebemos uma participação.

DMI: Você tem pretensão de ser um super app a partir da sinergia com o Guia Bolso, o que vai surgir desse merge?

Eduardo Chedig: Além do marketplace de serviços financeiros temos o PicPay Store, um e-commerce que vende desde geladeira a produtos digitais. E temos ainda menos desenvolvida uma operação de de adds, que vai permitir às empresas se comunicarem com meus usuários. Sim, nos vemos como um super app mas achamos que este termo está meio batido. Queremos ser um super app dentro de um contexto muito próximo a pagamentos. Quando ofereço crédito estou entrando na vida do cliente. Com o Guiabolso consigo acelerar a adoção de open banking. Vou conseguir analisar melhor meu cliente e formatar melhores propostas, fazendo com que ele tenha acesso a crédito de forma mais barata e personalizada.

DMI: O PicPay é uma empresa 100% J&F ou tem participação de algum fundo que eventualmente tenha feito algum aporte?

Eduardo Chedid: Nenhum fundo fez algum aporte até hoje.

Thiago Alvarez, fundador do Guiabolso – Crédito divulgação

DMI: Thiago, desde 2012, vocês captaram US$ 80 milhões em cinco rodadas com diferentes fundos. Todos realizaram bem o investimento?

Thiago Alvarez: Sim, estão felizes. Recebemos muitos parabéns dos nossos investidores. Foi uma venda completa de 100% do Guiabolso. Cada vez que conheço mais o PicPay, me impressiona o tamanho. São 55 milhões de usuários. Nós da Guiabolso pensamos, ‘construímos tanta coisa para melhorar a gestão das pessoas com uma escala’. Da hora para o dia multiplicamos por mais de dez a escala com o PicPay. É muito bacana. As duas empresas, lá em 2012 tinham visão de mercado parecidas, de que deveriam criar uma plataforma de finanças aberta. Começamos pela abertura dos dados para a gestão financeira e criação de marketplace. O PicPay começou com a visão de que o pagamento deveria ser uma plataforma aberta consolidando todos os cartões num lugar só e também foi para marketplace. E a Guiabolso estava indo para pagamentos e eles vindo para gestão financeira também. Quando juntamos as duas visões…

DMI: Quanto tempo durou a negociação até o fechamento do negócio?

Thiago Alvarez: Foi um namoro relâmpago. A gente se conhece há muito tempo. Um dos fundadores do PicPay, o Anderson Chamon do Carmo, é um usuário do Guiabolso desde o segundo mês da empresa. Mas o processo de chegar a proposta a fechar tudo foi cerca de três dias. Nem com fundo de venture capital foi tão rápido.

DMI: O que você imaginava que seria o futuro do Guiabolso, crescer organicamente, ser comprado por um grande banco, receber novos aportes mais vultosos?

Thiago Alvarez: Nosso sonho era impactar cada vez mais gente, trazendo um entendimento com o que está acontecendo com o bolso da pessoa, por meio de gestão financeira e visão de open finance. Conseguimos o casamento perfeito e para mim é uma continuidade de uma missão de vida de open banking. E tem o lado cultural também, as duas empresas têm culturas muito parecidas.

DMI: Você continua na administração e pretende fazer o que com os recursos que recebeu pela venda?

Thiago Alvarez: Continuo na empresa firme forte. Simplificar a vida das pessoas é fantástico.

DMI: O Guiabolso tem um marketplace financeiro consolidado, com mais de dez parceiros e nomes como Creditas, BV, Digio, Icatu e Órama. Como ficam essas parcerias?

Thiago Alvarez: A ideia é justamente pegar essas parcerias e colocar dentro do marketplace do PicPay. Para os parceiros é ótimo porque agora eles têm a oportunidade de ter uma escala ainda maior.

DMI: Chedid, o IPO volta em algum momento, ou os R$ 3 bilhões descartam a iniciativa de abrir o capital?

Eduardo Chedid: Esses recursos nos dão serenidade para tocarmos o plano. Não é porque não fizemos o IPO que não poderemos levar a empresa até onde ela tem que chegar. Do ponto de vista prático, os acionistas dobraram a aposta acreditando mais na empresa do que o que o mercado estava falando.

DMI: Por que o IPO foi cancelado?

Eduardo Chedid: Porque as condições não estavam corretas para seguirmos em frente.

DMI: Vocês têm uma grande base de clientes e muitos dados. O que vai transformar esses dados em ouro é o engine de open banking do Guiabolso?

Eduardo Chedid; O Nirvana é transformar isso em algo que dê valor para o usuário. Esse é o melhor benefício, para isso é preciso ter milhagem. Conseguiríamos fazer isso em um ou dois anos, mas com o Guiabolso fica mais rápido.

DMI: As duas empresas serão integradas ou permanecerão separadas?

Eduardo Chedid: A ideia é de que sejamos totalmente integrados. Mas é claro que isso é um processo que queremos fazer de forma mais suave possível. As culturas são parecidas, mas da mesma forma que precisamos absorver os desafios do Guiabolso, eles precisam absorver os nossos.

DMI: Qual será o primeiro produto do merge?

Thiago Alvarez: Ele estão relacionados a tudo que estávamos fazendo no open banking. O PicPay está dentro de nosso open banking, nosso marketplace está dentro do PicPay assim como toda a nossa parte de gestão financeira. São as três coisas mais importantes para trabalharmos.

DMI: Vocês têm de aderir ao Open Banking em que momento?

Eduardo Chedid: Obrigatoriamente na terceira fase na categoria “iniciador de pagamentos”. Mas, obviamente, para quem quer fazer a diferença em Open Banking, não vamos só pelo que somos obrigados. Queremos o pacote completo. Se fôssemos sozinhos, íamos penar um pouco mais. Mas, agora com o Thiago e nossa equipe, conseguiremos que essa missão ocorra mais rapidamente.

DMI: Há outras dobradinhas semelhantes como Nubank/EasyInvest, Kinvo/BTG; Fliper/XP. Quem serão os principais concorrentes?

Eduardo Chedid: Nesse mundo atual, se você acha que conhece seus concorrentes já começa atrasado. Na verdade, todo mundo é concorrente. Mas há uma característica de nossas plataformas: elas são abertas. Eu aceito cartão de crédito de qualquer um na minha carteira. Não falo para um cliente do Nubank encerrar a conta lá e vir para nosso lado. O que propomos é uma camada diferente: traga seu cartão que vou abrir novos casos de uso por meio de nossa carteira digital. E o Guiabolso também sempre teve essa filosofia.

DMI: O PicPay também tem feito muitas parcerias com concessionárias de energia. Como funcionam essas parcerias?

Eduardo Chedid: O que fazemos é abrir opções de pagamento para os clientes – pagar com cartão, parcelar o valor. Obviamente as utilities gostam disso, pois, à medida em que facilitamos a vida do pagador, facilitamos a do recebedor também. Tudo o que ofereço para o cliente é direto com ele, a utility recebe imediatamente.

DMI: Quais os próximos passos na integração?

Eduardo Chedig: Estamos mais animados à medida em que vamos conhecendo as pessoas e a oportunidade.

Thiago Alvarez: Estamos superanimados. É um escala completamente diferente, as culturas, visões e valores são complementares. Não poderia ter sido feita uma negociação melhor do que essa.