Notas de 10, 20, 50, 100 e 200 reais

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O real digital pode ampliar a inclusão financeira e diminuir custos e tempo de pagamentos, a partir da extensão da moeda brasileira para os meios eletrônicos. A opinião é do diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central, João Manoel Pinho de Mello. Para ele, a CBDC, como está sendo chamada a moeda digital do Banco Central, a partir da sigla de Central Bank Digital Currency, precisa ter um desenho capaz de proporcionar maiores eficiência e transparência para as transações no sistema do financeiro, beneficiando o comércio e os consumidores.

Pinho de Mello participou nesta quinta-feira, 29, de evento virtual, promovido pelo BC para debater os potenciais do real em formato digital. Ele afirmou que a discussão sobre a moeda digital já acontece internamente no BC há algum tempo e o objetivo não é uma substituição, mas uma complementaridade, ponderando que os ganhos da criação do real digital devem superar os riscos e custos da adoção da tecnologia.

“Não existe um padrão definido ou um modelo a ser seguido. Além disso, pensando numa possível interação entre CBDCs de várias jurisdições, fica evidente a necessidade de uma coordenação, para que essas moedas possam ser trocadas num cenário de aumento de eficiência e conveniência, com um nível de fricção significativamente menor do que aquele que existe atualmente para os pagamentos transfronteiriços”, afirmou o diretor do Banco Central.

A digitalização do mercado financeiro e a mudança de hábitos dos brasileiros, principalmente após a pandemia, foram citados por Pinho de Mello como facilitadores para a implantação de inovações que promovam a inclusão. “Hoje, o celular se tornou peça fundamental nos pagamentos, trazendo novos termos para nosso cotidiano, como QR Code ou pagamento por aproximação. Nessas condições, em um ambiente no qual a população usa crescentemente os pagamentos digitais e as tecnologias avançam no provimento de soluções seguras e customizadas, temos a oportunidade de debater o assunto de CBDC como ferramenta complementar”, disse.

SFN mais forte

A introdução de uma versão digital do real pode deixar o sistema financeiro brasileiro mais seguro e forte, além de cortar custos em alguns setores, mas a sua implantação no Brasil difere do que ocorre em outros países, segundo Keiji Sakai, representante no Brasil da americana R3, que também participou do evento.

“A gente sabe que existem algumas ineficiências no mercado ou eficiências terceirizadas, coisas que o sistema como um todo não permite, então você contrata serviço de um terceiro. Essas eficiências terceirizadas poderiam ser eliminadas”, disse Sakai. Ele ressaltou que no exterior o foco no desenvolvimento das moedas digitais de bancos centrais é permitir o pagamento instantâneo – algo que no Brasil foi introduzido com o Pix no ano passado -, e no atacado para diminuir os problemas de reconciliação bancária para aqueles que não têm um sistema capaz de fazer a transferência imediata de fundos ou ativos, o que o Brasil consegue fazer desde 2002.

Bolsa Família pode facilitar adoção

Ao comentar sobre a adoção da CBDC pela população, Eduardo Diniz, professor titular da Escola de Negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV), defendeu que programas como o Bolsa Família podem acelerar a adesão dos brasileiros à moeda digital. “Temos algumas plataformas onde poderiam ser utilizadas a tecnologia da moeda digital. O Bolsa Família, por exemplo, tem uma infraestrutura muito bem instalada, com pagamentos digitais até a ponta com a entrega cartão para o usuário. O que aconteceu com a pandemia é que o nível da adoção de pagamentos digitais aumentou lá na ponta e eu vejo lógica na adoção em massa, pensando numa infraestrutura como essa”, afirmou.

Segundo Diniz, outro uso para a moeda digital seria a contribuição para corrigir deficiências do sistema financeiro. “Tem sistemas em que é necessário um maior controle e transparência das transações. A gente já cansou de ver o grau de corrupção, por exemplo, em malas de dinheiro. Tem alguns pontos onde você tem fragilidade do sistema e que você poderia entrar com aplicações definidas para estes segmentos específicos, reduzindo esses problemas que são evidentes e conhecidos”, sugeriu.