Diminuição nos investimentos e demissões ‘corrigem’ o mercado - Crédito: Divulgação

Diego Pérez, presidente da ABFintechs Foto: Divulgação

Guerra no leste europeu e tendências econômicas globais de inflação e altas taxas de juros, somados à instabilidade política e social, têm afetado o capitalismo de risco no Brasil. Startups e investidores de Venture Capital buscam agora ajustar as avaliações.

Uma das consequências é que empresas de tecnologia iniciaram uma onda de demissões: a QuintoAndar demitiu 160 funcionários (4% de seu quadro); a Loft, avaliada em US$ 3 bilhões cortou 159 pessoas; além da Facily e Creditas. A brasileira Vtex demitiu 200 pessoas (13% da equipe). A empresa, que abriu o capital na Bolsa de NY em julho de 2021 a um valuation de US$ 4,7 bilhões, está com capitalização de mercado hoje de US$ 820 milhões.

“Essas empresas não estão mal. Trata-se de um movimento de amadurecimento, consolidação e reestruturação do seu modelo de gestão para quando abrirem o capital não sofrerem tanto com essas quedas de valuation”, afirma  Diego Pérez, presidente da ABFintechs. “Esse movimento também se faz importante para o investidor de Venture Capital, pois é no IPO que eles vão ver o retorno sobre seu investimento.”

Quando o cenário econômico global passa por adversidades, segundo ele, é comum que alguns investidores fiquem tímidos, especialmente os de capital de risco. No entanto, a estratégia na América Latina continuará forte devido ao ambiente favorável na região para o desenvolvimento de novas soluções tecnológicas.

“As demissões são mais uma estratégia de remodelação para perpetuar o caixa que as empresas têm hoje, enquanto os próximos investimentos não acontecem.  Então é uma situação de prevenção de perdas futuras ou de tentar se manter vivo até quando esse cenário passar”, analisa Diego Pérez.

Temperatura das startups menores

Para o presidente da ABFintechs, a modernização do arcabouço regulatório inclui inovações, especialmente no setor bancário. Enquanto um grande marketplace trabalha com margens apertadas, as fintechs do setor financeiro operam com margens maiores.

“Os ajustes que vem com o Pix, Open Finance e sandbox regulatório criam um ambiente fértil para as fintechs desenvolverem novos modelos de negócio, ganhar atratividade e adoção do público e, por consequência, investimento. E serviços financeiros as pessoas não deixam de consumir mesmo em cenário de crise”, observa  Pérez.

Na sua opinião, o setor de câmbio ou negociação de moedas estrangeiras assim como o de pagamentos eletrônicos, que também está conectado às transações de câmbio, apresentam-se como os mais promissores em 2022.

“Com as evoluções do Open Finance e Open Banking as novas licenças regulatórias como o Iniciador de Pagamentos serão mais frequentes no dia a dia do brasileiro, que vão começar a usar e entender a real proposta de valor dessas novas funcionalidades”, diz.

Desemprego

Em 2020 e 2021, o pacote de remuneração dos profissionais que atuam em tecnologia estava inflacionado pelo excesso de demanda. Além dos novos unicórnios contratarem pessoas a rodo, tinha também a questão da moeda desvalorizada onde a mão de obra brasileira se tornava atrativa para empresas de outros países.

Com essas pessoas voltando para o mercado e os unicórnios deixando de contratar para manter esse novo modo de gerir sua estrutura, mais enxuta e conservadora, os profissionais provavelmente vão aceitar trabalhar em empresas menores que pagam menos. “Essas empresas menores estão com desafios de contratar profissionais qualificados, então surge uma oportunidade para elas ocuparem as vagas que têm e retomar o crescimento para alcançar o próximo estágio”, ressalta Pérez.

Segundo ele, por mais que as fintechs ou os unicórnios tenham cortado, as startups de menor porte continuam contratando. “Só que elas não contratam 500 pessoas de uma vez, elas contratam três ou quatro. Então essas contratações vão ser pulverizadas e ao mesmo tempo eu enxergo uma possibilidade da redução do custo de mão de obra, porque os pacotes de remuneração para profissionais altamente qualificados para trabalhar em ambiente de tecnologia estavam inflacionados”, analisa.

Diminuição nos investimentos e demissões ‘corrigem’ o mercado - Crédito: Divulgação

Marcell Almeida, CEO da PM3 – Crédito: Divulgação

Edtech não sente impacto

O número de demissões de profissionais de tecnologia e a diminuição nos investimentos nas startups brasileiras não têm afetado o mercado das edtechs, pelo menos na opinião da PM3, especializada em ofertar cursos de product management. Para o co-fundador e CEO, Marcell Almeida, a PM3 não precisa, necessariamente, virar um unicórnio, mas isso não quer dizer que ela não é lucrativa.

“Temos acompanhado de perto essa situação, até porque 35% dos nossos clientes são empresas, mas até o momento essas demissões não têm nos impactado. Um ou dois clientes pediram para rever o nosso orçamento, mas provavelmente vão retomar, vão adquirir alguns cursos, então, não sentimos nada”, afirma Marcell.

Fundada em 2018, a PM3 hoje conta com cinco cursos focados em gestão de produtos digitais, por onde já passaram 17 mil alunos. Marcell Almeida, que já passou por Nubank, Easy Taxi e VivaReal, tem uma visão um pouco diferente do restante do ecossistema. “Hoje trabalhamos com 35 pessoas e nosso faturamento em 2022 deve chegar a R$ 20 milhões, sempre com lucro, sempre sobrando caixa para podermos reinvestir. Tudo que pensamos é para sermos enxutos, se a gente vê alguma iniciativa que não vai escalar a gente não faz”, ressalta.

Sem contar com aportes, a PM3 se prepara para lançar mais dois novos cursos em 2023 e ampliar as suas atividades, talvez para o mercado externo. “Estamos analisando uma vertical, seja na América latina ou algo no Brasil, mas independentemente do cenário acreditamos que vamos crescer. Engraçado que há cerca de dois ou três anos algumas pessoas nos criticavam por reinvestirmos o próprio capital. E agora é o contrário, mas eu acho que é uma consciência que toda empresa vai precisar ter”, aponta Marcell Almeida.

Mais seleção para diminuir risco

O professor da Insper e especialista em negócios, transformação digital e UX, Fernando Molin acredita que 2022 vai continuar sendo um ano bom para investimentos. “Está mais atrativo colocar dinheiro em investimentos de menor risco e com isso os investidores começam a ser mais seletivos para investir com rentabilidade”, afirma.

Para ele, o mercado está passando por um momento de correção saudável, pois havia empresas crescendo rápido demais e apresentando pouco retorno. Com o maior custo do capital, elas questionam a possibilidade de fazer novos aportes e passam a cortar pessoas, especialmente nas áreas de tecnologia e marketing, para se ajustarem à nova realidade.

O economista prevê que os profissionais que estão sendo demitidos, tendem a se recolocarem rápido, devido à grande carência de mão de obra no setor de tecnologia. “Os salários nesses segmentos estão muito elevados e há alta procura”, diz.

Ele concorda que as demissões são ajustes operacionais diante do excesso de gente dimensionando o potencial de investimento. “O ano eleitoral já estava precificado no mercado. O cenário exige maior cobrança por estruturação, foco e profissionalismo. Por outro lado, os empreendedores estão mais amadurecidos. O mercado continuará aquecido para quem trabalhar”, conclui.