Sede do Banco Central em Brasília

A preocupação com os desdobramentos da pandemia, como redução da atividade econômica e inadimplência crescente, mantém o mercado em atenção, principalmente após o surgimento de novas cepas do coronavírus e com o atraso na vacinação. As instituições financeiras acreditam que a crise sanitária pode se prolongar e exigir mais gastos para proteger a população vulnerável, o que aumentará o elevado risco fiscal.

Essas são algumas das conclusões do Relatório de Estabilidade Financeira (REF) referente ao segundo semestre de 2020, divulgado nesta terça-feira, 27, pelo Banco Central. O BC avalia que o Sistema Financeiro Nacional (SFN) está preparado para enfrentar essas incertezas. Ao longo de 2020, o SFN alcançou o maior valor histórico de provisões para cobertura para Ativos Problemáticos (APs), melhorou a capitalização e manteve liquidez confortável.

“A atividade econômica doméstica recuperava-se de forma consistente até o final de 2020. Os primeiros sinais para 2021 também foram positivos, mas o cenário é de prudência, uma vez que esses dados ainda não contemplaram os efeitos do recente e agudo aumento de casos de Covid-19. Embora não seja o esperado, esse cenário pode levar a perdas com crédito superiores às estimadas. Eventual reversão na atividade econômica provavelmente seria seguida por rápida recuperação, especialmente no segundo semestre, na medida em que os efeitos da vacinação sejam sentidos de forma mais abrangente”, analisa o relatório do BC.

De acordo com a autoridade monetária, no âmbito global, o sistema financeiro das principais economias segue resiliente. O risco sistêmico aumentou durante a pandemia, mas tem se reduzido nos últimos meses. Bancos centrais estrangeiros implementaram programas para garantir o regular funcionamento dos mercados financeiros, favorecendo a preservação da liquidez e do capital das instituições financeiras. Diversas jurisdições implementaram programas para facilitar o financiamento a empresas não financeiras e flexibilizar temporariamente aspectos da regulação bancária.

Programas emergenciais impulsionaram o aumento do crédito

Dos 11,9% de crescimento do crédito bancário a empresas no segundo semestre de 2020, cerca de 80% deveram-se aos programas governamentais de incentivo ao crédito. O crédito com incentivos foi essencialmente para as micro, pequenas e médias empresas. “Assim, esse crescimento de dois dígitos não deve se repetir no primeiro semestre de 2021”, aponta o documento do BC.

Já a situação econômico-financeira das empresas melhorou de forma desigual. As empresas de capital aberto recuperaram rentabilidade e capacidade de pagamento, de acordo com o estudo. Para o conjunto de todas as empresas, o fluxo de recebimentos também melhorou, mas as restrições sanitárias ainda impactam negativamente setores como “Mídia e Lazer” e “Transportes”.

A rentabilidade dos bancos diminuiu com a crise sanitária, com queda de 26% em 2020 com relação a 2019, mas não representa risco para a estabilidade financeira, de acordo com o relatório. A expectativa para 2021 é de melhora. Mantida a perspectiva de recuperação, as despesas com provisões tendem a ser menores, e as receitas de serviço, a se recuperar.