Marco Stefanini, fundador e CEO Global do Grupo Stefanini – credito: divulgação

Criada em 1987 para prestar serviços ao sistema financeiro, a Stefanini faturou R$ 4 bilhões no ano passado  e com perspectivas de atingir R$ 4,8 bilhões em 2021. Hoje a empresa tem um leque diversificado de serviços e operações em 41 países. O setor financeiro ainda representa 35% de suas receitas no Brasil.

A Stefanini é organizada por torres de soluções. Na torre financeira estão Topaz, Orbitall Processamento, LogBank, SCM (Stefanini Capital Market) e Saque e Pague. No final do ano passado, a Stefanini adquiriu das unidades de negócio da Diebold Nixdorf Brasil, com foco na prevenção de fraude de comércio eletrônico e automação de canal.

As duas soluções foram incorporadas à Topaz, responsável pelas soluções financeiras, incluindo o core bancário. A empresa acaba de lançar a solução OFD Onboarding Analyzer, capaz de analisar milhares de contas por dia a fim de evitar fraudes. Esta semana a a LogBank, empresa do grupo especializada em meios de pagamento e arranjos financeiros no modelo White Label, se uniu à TIP Brasil para anunciar uma plataforma de pagamento customizada para o segmento de provedores de Internet. A plataforma ISP Bank permite ao provedor oferecer serviços financeiros para seus clientes – pessoa física ou jurídica – tais como abertura de conta, cartão pré-pago, débito via carteira digital e produto para folha de pagamento.

Isso mostra como a Stefanini incorporou de vez o novo ecossistema financeiro digital, que não se resume apenas a bancos e fintechs. Nesta entrevista, o fundador e CEO Global do Grupo Stefanini, Marco Stefanini, explica a nova forma de abordagem do grupo no ecossistema sistema financeiro, extremamente concentrado, na sua avaliação. E sobre seu apetite constante para aquisições. Desde sua criação, a Stefanini já fez 30 aquisições de empresas que complementam a oferta global do grupo.

DMI: A Stefanini está completando 34 anos e nasceu no sistema financeiro. Como você vê a evolução do setor neste período?

Marco Stefanini: O setor financeiro no Brasil sempre foi pioneiro no uso da tecnologia, por várias razões. Sempre teve muito dinheiro, necessidade e apetite de trabalhar com tecnologia. É um setor que contribuiu muito e é de vanguarda em nível mundial mas de forma mais relevante ainda no Brasil. Primeiro por causa da inflação, que era uma necessidade bem concreta e criaram sistemas muito eficientes.
Segundo porque o setor financeiro é muito rico; comparando-se com outros países, é até desproporcional em termos de peso na economia, o que não é bom, principalmente devido às taxas de juros muito altas. Os bancos acabaram sendo muito relevantes e por isso foi importante ser um provedor de tecnologia para o setor pois propiciava escala e conhecimento para outros setores.

DMI: Quantas operações vocês têm hoje, e como a Stefanini está organizada para o setor financeiro.

Stefanini: Estamos em 41 países e somos organizados por indústrias, incluindo o setor financeira que tem uma vertical em todos os países. O México é o país onde temos a maior concentração do faturamento no setor bancário, 60%. Globalmente é 30%, no Brasil 35%, lembrando que trabalhamos com todos os setores, então esse percentual é o maior disparado. O segundo, manufatura, é 20%.

DMI: Qual a linha de serviços para o setor financeiro além de body shop, fábrica de desenvolvimento, BPM?

Stefanini: Evoluímos muito. Esses eram os serviços que prestávamos há 15 anos. Temos muitos serviços gerenciados na área de aplicações e infraestrutura, mas o espectro é muito amplo: oferecemos cyber security; marketing digital, com vários grandes bancos como clientes; analytics; plataforma de inteligência artificial. E produtos como bank as a service, por meio da Orbital; o melhor core bancário do país, da Topaz, com uma ampla base de clientes no Brasil e América Latina; a Saque e Pague, que é a única empresa de ATM a concorrer com a TecBan.

DMI: Quem são os usuários de core bancário da Stefanini no Brasil?

Stefanini: A solução da Topaz está em empresas como Pague Seguro, Agibank, Riachuelo, Sicred. Hoje o mercado é bem amplo para core bancário. Antes era apenas para bancos de pequeno e médio portes. Hoje fintechs e qualquer empresa que esteja se tornando financeira são candidatas a ter um core bancário robusto, desde que tenham uma operação grande. E agora até os grandes bancos estão avaliando ter uma segunda alternativa para bancos digitais.

DMI: Essa bancarização de diversos setores abre muitas oportunidades para uma empresa como a Stefanini?

Stefanini: Sim, antes prestávamos serviços para bancos grandes e médio no máximo; hoje atendemos bancos, grandes, médios, pequenos, fintechs, varejo.

DMI: Vocês têm feito muitas aquisições. Há ainda apetite para novas compras?

Stefanini: Estamos sim com apetite, este ano teremos mais algumas. Temos duas estratégias de crescimento: orgânico e via aquisições. Estamos em busca de empresas que tenham soluções digitais; em segundo lugar, as aquisições não são apenas no Brasil, pois temos um perfil global. E em terceiro que atendam as torres que tenham foco e crescimento como marketing digital, banking, cyber security.

DMI: No setor financeiro o que falta para complementar a oferta da Stefanini?

Stefanini: Há dois vetores. Há soluções adicionais em termos de core bancário. Estamos montando uma plataforma Full Bank com tudo o que um banco precisa. As aquisições visam a complementar essa plataforma ou atender a mercados distintos. Estamos avaliando aquisições de empresas na América Latina para complementar a oferta de cada país. Nosso apetite de aquisições é muito amplo e cada uma das nossas empresas tem uma agenda de aquisições.

DMI: Como você garimpa essas empresas?

Stefanini: Eventualmente são empresa com as quais atuamos juntos. Mas a maior parte são elas que vêm até nós. Devemos receber de dez a 12 empresa por semana para fazer negócio. É um processo longo, de muita conversa. Em primeiro lugar, há um filtro logo no início porque temos de comprar empresas que tenham afinidade com a Stefanini e nossas soluções. Em segundo, há a questão da qualidade, preço do ativo, oferta e localização geográfica. E, por fim, há a negociação si, leva de um a dois anos. Até hoje já fizemos 30 aquisições, sendo sete somente no ano passado.

DMI: O setor financeiro tem sua jabuticaba local em todos os países?

Stefanini: O Brasil é imbatível. Nossa solução de core bancário Topaz não é brasileira, é do Uruguai e já roda há mais de 25 anos na América Latina. Eu não conheço nenhum outro core bancário que tenha sido tão bem localizado no Brasil com sucesso.

DMI: Qual o principal desafio do setor bancário hoje no Brasil e no mundo?

Stefanini: O mundo está vivendo o processo de Open Banking que começou no Reino Unido e na Europa. É um movimento global, mas no Brasil tem contornos mais fortes porque há muita concentração bancária, os bancos não atuam apenas na sua área, têm um ecossistema maior. Existe um desequilíbrio entre produção e mercado financeiro, que tem um peso maior na economia. Principalmente pelo tamanho do mercado e pelos juros muito altos na ponta da pessoa física, a oportunidade de trabalhar com o mercado digital financeiro é muito maior. O Brasil hoje é o melhor mercado do mudo para fintechs. O segundo são alguns países da América Latina. E o Banco Central vem fazendo um excelente trabalho para democratizar mais o mercado financeiro que é muito concentrado. É uma combinação de legislação, tamanho de mercado e juros muito altos.